Meu Namorado é um Zumbi – Não julgue o zumbi por ser apaixonado

Depois de feiticeiros e vampiros terem seu momento de badalação, agora é a vez dos zumbis. Os mortos vivos estão em evidência novamente devido ao sucesso estrondoso de The Walking Dead, tanto as HQs quanto sua adaptação televisiva, marcado por índices de rentabilidade absurdos, estabelecendo os zumbis como as criaturas sobrenaturais do momento.  Depois do fim da rentável “Saga Crepúsculo”, Hollywood estava sedenta para encontrar um romance teen com um toque sobrenatural, até que “Sangue Quente” de Isaac Marion foi lançado e diversos chefes de estúdio começaram a ouvir sons de caixas registradoras em seus subconscientes.

O longa chega ao Brasil como “Meu Namorado é um Zumbi” (mais um terrível título das distribuidoras nacionais), com roteiro e direção de Jonathan Levine.  Acompanhamos a entediante rotina de R, um zumbi bem conservado que está passando por uma série de crises existenciais. Cansado de perambular pelo aeroporto, ele decidi ir para a cidade com seus companheiros a procura de cérebros para saciar sua fome e fugir do tédio. Até que no meio da habitual confusão de gritos e tiroteios durante a refeição, ele conhece Julie, filha do líder do grupo de sobreviventes, o general Grigio. Mesmo após devorar o namorado anterior da menina, R salva Julie e à medida que os dois se aproximam algo desperta no romântico zumbi que pode mudar para sempre o destino desse mundo pós-apocalíptico.

Um dos principais méritos de Jonathan Levine é perceber o quão absurda é a premissa do longa. Dessa maneira o filme nunca se leva a sério, fazendo piadas a todo momento sobre o absurdo de algumas situações. Principalmente os momentos ligados ao bizarro romance entre os protagonistas, que são sempre contidos e sem a pieguice irritante adotada em Twilight.

O texto de Levine consegue tecer alguns comentários sociais interessantes como a futilidade da adolescência e a falta de conectividade humana, ilustrada por hábitos consumistas e o colecionismo do protagonista. A imposição do estúdio por uma abordagem mais leve, visando um público mais jovem (leia-se adolescentes acéfalas), certamente prejudica o entendimento dessas críticas, mas elas estão presentes em pequenos momentos. R lendo uma revista de fofocas com a capa estampada  por Kim Kardashian é uma das cenas mais cômicas do longa.

A narrativa se desenvolve sob o olhar de R que filosofa o tempo todo sobre sua existência e inseguranças, criando um laço de empatia com público. Nicholas Hoult compensa a incapacidade de comunicação do seu personagem com um cômico exagero de expressões faciais e consegue cativar a audiência, mesmo com seu bizarro hábito de comer cérebros. Sua química com Teresa Palmer é essencial para comprarmos a ideia desse romance bizarro. Teresa Palmer parece ter sido escolhida a dedo pelo estúdio por sua semelhança com a Kristen Stewart, mas sua performance é infinitamente mais carismática. Por mais que os dramas de Julie tenham sido explorados superficialmente, Teresa consegue estabelecer sua personagem devido a sua presença.

O elenco de apoio conta com a presença do insano John Malkovich, que se mostra contido e parece atuar de forma automática como o general Grigio. Mas o destaque entre os coadjuvantes certamente vai para Rob Corddry, com uma atuação marcada por seus trejeitos esquisitos e sua estranha amizade com R. Eu nunca imaginei que seria tão engraçado ver um zumbi falando “Fuck Yeah!”.

O filme possui alguns problemas visíveis como a maquiagem dos zumbis que não convence, as resoluções são simplistas e a acelerada humanização dos mortos-vivos. No entanto tudo isso é compensado com muito humor ácido, uma excelente trilha sonora e uma perspectiva diferente que tornam o filme uma grata surpresa. Não se deixe levar pelas aparências, “Meu Namorado é um Zumbi” é um filme assaz divertido e nos apresenta o único zumbi da história do cinema que curte Guns N’ Roses e Bob Dylan.

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Django Livre – Tarantino, seu lindo!

Quentin Tarantino é o maior cinéfilo do mundo, dotado de um impressionante domínio técnico e linguagem narrativa. Seus trabalhos contam sempre com um marcante humor negro, diálogos ágeis e inteligentes e uma série de referências as obras que o inspiraram. Tudo isso envolto numa camada de violência exagerada que beira o explotation, que proporcionam ao espectador uma espécie de orgasmo sanguinolento.

Tarantino segue com a temática de “vingança” (cerne de seus seis últimos filmes) em “Django Livre”, fazendo uma sensacional mistura de seus gêneros favoritos o blaxplotation e o western spaghetii (como a história se passa no sul dos EUA, southern spaghetii). Oferecendo algo novo na sua filmografia, como uma preocupação social e política, metendo o dedo na ferida deixada aberta pela escravidão americana, que ainda reflete nos dias de hoje na forma do preconceito racial.

Como de costume Tarantino assume o papel de diretor/roteirista assinando o texto que narra a história de Django um escravo recrutado (e libertado) pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz, para identificar três foras-da-lei que estão em sua alça de mira. Concluído o trabalho, Django tomou gosto pelo ofício, passando a atuar como parceiro e aprendiz de Schultz, até que os dois passam a uma missão mais pessoal: resgatar a esposa do ex-escravo, Broomhilda, das mãos do sádico fazendeiro Calvin J. Candie.

A partir daí, Tarantino se diverte com suas referências aos ícones das filmografias de Sergio Leone e Sergio Corbucci, adotando elementos técnicos e narrativos típicos do gênero, como zooms rápidos e o letreiro estilizado que resume a trajetória da dupla durante o inverno. Outra referência aos western fica por conta das clássicas faixas do mestre Ennio Morricone que fazem parte da trilha sonora, que ainda contam com músicas bem ecléticas que variam de Jhonny Cash a RZA. Mas, o cinema de Tarantino não se limita apenas a referências, tendo como sua maior força diálogos densos e inteligentes, recheados de com um humor característico. Destaque para o diálogo (mais engraçado de sua carreira) entre membros de um grupo de racistas, precedentes a Klu Klux Klan, discutindo se deveriam ou não usar sacos na cabeça durante a incursão, devido à dificuldade de enxergar através dos buracos.

Outra marca desse diretor fantástico é sua preocupação em estabelecer personagens icônicos e memoráveis e “Django Livre” é recheado dessas figuras. Desde seu protagonista, vivido por Jamie Foxx, que é apresentado como uma figura amedrontada e calejado pelos anos de servidão e gradualmente vai ganhado força e segurança, se tornando dono de seu próprio destino e um herói disposto a subir a montanha e salvar sua amada das garras do terrível dragão.

Christoph Waltz encarna o alemão King Shultz, parceiro e mentor de Django. A química entre Waltz e Foxx é fundamental para que o filme funcione. A atuação de Christolph Waltz é brilhante, construindo um personagem irônico, altamente culto e com um vocabulário rebuscado. Suas infrutíferas tentativas de estabelecer um diálogo com os estúpidos e brutos escravagistas norte-americanos rendem cenas divertidas.

Leonardo DiCaprio confere todo intensidade a seu primeiro vilão, o sádico exibicionista Calvin Candie.  O proprietário da Candyland é assessorado de perto Stephen, personagem de Samuel L. Jackson. Fragilizado fisicamente, mas intelectualmente afiado, Stephen gerencia os escravos da “Casa Grande” e serve como principal conselheiro de Calvin, tornando-se uma figura tão ameaçadora e desprezível quanto seu patrão.

“Django Livre” não é o trabalho mais estável de sua filmografia, mas certamente é um dos mais prazerosos. A película é altamente respeitosa com os afro-americanos, com o papel que eles exerceram para conquistar sua libertação e com sua cultura. Talvez esse seja o longa mais político da filmografia do Quentin Tarantino, mas mesmo assim mantém sua essência como as ótimas atuações, violência catártica (principalmente no clímax) e humor negro. Se o Spike Lee não conseguiu enxergar isso, ele é um completo imbecil.

Lincoln – Daniel Day-Lewis já reservou espaço na prateleira para mais um Oscar

Abraham Lincoln foi o 16º presidente americano, responsável por liderar a os EUA no período mais crítico de sua história, a Guerra de Secessão. Livros de histórias estão repletos  de fatos a seu respeito e faz parte do senso comum como Lincoln foi um grande homem, sem talvez reconhecer todos os elementos que contribuem  para sua grandeza. Então Steven Spilberg decide, em seu filme mais político, nos mostrar um pequeno retrato que sintetiza a raridade dessa figura icônica em “Lincoln”.

Roteirizado pelo dramaturgo Tony Kusher, a narrativa se limita ao crucial ano de 1865, último ano da Guerra Civil americana, e nos leva a acompanhar os esforços de Abraham Lincoln para conseguir a aprovação da polêmica 13ª Emenda que aboliria a escravidão no país. Como a oposição ferrenha do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, se mostrava o principal entrave para o fim da submissão racial, Lincoln se vê num dilema moral. Por isso, algumas manobras políticas são feitas visando conquistar o voto dos congressistas mais maleáveis da oposição.

Não se enganem, o Spielberg inteligentemente não se preocupa em produzir um longa biográfico do 16º presidente americano, nem foca nas sangrentas batalhas durante a guerra (a única cena de batalha no prólogo tem cerca de um minuto). O roteiro rico em detalhes de Tony Kusher se preocupa em apresentar o ambicioso projeto abolicionista de Lincoln e as táticas que podem ser consideradas “sujas”, empregadas para convencer os oposicionistas, que iam de promessas por um cargo no Governo a omissão de informação. A frase proferida por Thaddeus Stevens, personagem de Tommy Lee Jones, sintetiza perfeitamente o longa como “a mais grandiosa medida do século 19, aprovada por meio da corrupção, endossada e promovida pelo homem mais puro da América”. Com um texto eloqüente em mãos, Spielberg prioriza por narrar todo esse processo político por meio de longos diálogos. O diretor se mostra mais contido do que o de costume e prefere se ater a condução do elenco, registrando a performance de Daniel Day-Lewis como pilar central da narrativa.

Desde aos planos-médios à iluminação de ambientes escuros, onde a única fonte de luz provém de réstias de sol da janela que recaem sobre a figura do presidente como holofotes. Todos os elementos trabalham com o propósito de capturar a performance de Daniel Day-Lewis, meticulosa como sempre, marcada por um impressionante  trabalho de expressão corporal e entonação de voz.O peso dos quatro anos de guerra é visível em sua postura encurvada, mas  mesmo assim Lincoln se mantém uma figura inabalável e digna, sempre com uma história edificante para contar e com um apurado senso de retórica. Rasgar elogios ao talento desse ator é “chover no molhado”, devido a sua habitual entrega aos projetos que se compromete.

O elenco de apoio também apresenta algumas atuações memoráveis, como Tommy Lee Jones como o radical abolicionista republicano Thaddeus Stevens. Apresentando sua carranca habitual, Jones encarna uma figura forte e implacável que não se importa em proferir insultos contra seus adversários para ilustrar seu ponto vista. Sally Field mais uma vez encarna  uma figura materna forte, como Mary Todd Lincoln. Com a difícil missão de contracenar na maioria das cenas com Daniel Day-Lewis, ela consegue entregar uma atuação a altura, como a angustiada primeira dama dos EUA. Vale elogiar também o desempenho de David Strathairn, como o secretário de Estado William Seward, e outros membros do elenco como James Spader e John Hawkes.

Infelizmente, Spilberg não consegue conter seu habitual gosto pelo melodrama e acaba prolongando a fita mais do que o necessário, só para capitalizar mais algumas lágrimas. Mas no geral,“Lincoln” representa para Spilberg, o seu retorno a boa forma em filmes com um apelo mais sério, reafirmando sua capacidade de produzir algo respeitável após o piegas e duramente criticado “Cavalo de Guerra”. Spielberg não se preocupa em endeusar a figura do Abraham Lincoln, e se limita a mostrar o lado humano do político, pai de família, estrategista e contador de histórias. Sem ação ou efeitos especiais assistimos a guerra mais devastadora da história americana sendo travada por um grande homem que acredita que está fazendo o certo na luta para conquistar a liberdade.

O Lado Bom da Vida – Ter a cabeça no lugar é para fracos

Vamos ser honestos, você provavelmente já está cansado de assistir comédias românticas e já sabe de cor a mecânica dos filmes do gênero: um cara passando por momentos difíceis encontra uma garota tão problemática quanto ele; juntos eles passam por momentos divertidos, mas chega em um ponto onde o amor dos dois é posto a prova, mas no último momento o cara corre até o aeroporto para impedir que sua amada se vá para sempre, então eles se reconciliam e se beijam na frente de uma multidão que aplaude o amor que vence no fim das contas. Agora tente dizer para o David O. Russel que é exatamente assim que se faz uma comédia romântica. Ele pode até concordar com a fórmula a principio, mas vai adicionar um casal de personagens mentalmente debilitados, interpretado por uma dupla de atores com uma química fantástica e vai te entregar “O lado bom da vida”, um dos longas mais satisfatórios da temporada.

O roteiro escrito por David O. Russel é adaptado do livro homônimo de Matthew Quick que narra a jornada de reabilitação de Pat Solitano, após perder tudo – sua casa, seu emprego, e sua esposa. Ele se vê morando novamente com seus pais, após passar oito meses em uma instituição para tratar de sua depressão. Pat está determinado a reconstruir sua vida, pensar positivo e recuperar sua esposa, mesmo após pegá-la dormindo com outro homem.

Quando Pat conhece Tiffany, uma misteriosa garota com seus próprios problemas, as coisas ficam ainda mais complicadas. Tiffany se oferece para ajudá-lo a se reconciliar com sua esposa, mas somente se ele fizer algo importante por ela em retorno. Conforme seu trato vai se desenrolando, um inesperado vínculo afetivo vai se formando entre eles e uma ponta de otimismo surge nas vidas de ambos.

A primeira vista fica difícil classificar “O lado bom da vida” como uma comédia romântica, devido a própria abordagem inicial sucinta, sem se preocupar com didatismo, tomada por seu diretor. Embora ele construa uma narrativa que a audiência sabe exatamente onde vai parar, David O. Russel adiciona elementos dramáticos e sátiras inteligentes, o que nos faz redescobrir o gênero e se apaixonar perdidamente pelo carisma de seus personagens. Ele sabe a qualidade do material humano que tem em mãos, por isso prioriza diálogos quase ininterruptos e dá espaço para suas estrelas brilharem.

Boa parte do sucesso do longa se deve a química entre seus protagonistas Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Pat Solitano  não é apenas mais um personagem sarado e conquistador na filmografia de Cooper. Bradley Cooper confere uma dualidade e intensidade incríveis ao bipolar Pat Jr., um personagem com alterações de humor constantes. Já Jennifer Lawrence encarna a doce instável Tiffany (mais uma personagem forte em sua carreira),uma fascinante personagem autentica que se aceita do seu jeito, pouco se importando com a aprovação da sociedade. A dinâmica entre os dois certamente é o ponto alto do filme.

O elenco de apoio também merece destaque desde de sempre hilário Chris Tucker ao fantástico Robert De Niro. Robert De Niro volta a nos presentear com uma ótima performance ao viver o obsessivo compulsivo fã do Eagles Pat Solitano Sr. A estrela de De Niro brilha tanto que acaba ofuscando Jackie Reaver que vive Dolores, mãe de Pat.

Com uma história infinitamente mais interessante do que as comédias românticas contemporâneas, o longa foge da maioria dos clichês do gênero, compensando com um conteúdo que gera reflexões de como encaramos a nós mesmos. Mais difícil do que obter aceitação dos outros é aceitar a si mesmo. Sucesso maior do que consertar os defeitos é aprender a lidar com eles. Quando chegarmos nesse nível de esclarecimento, talvez estejamos preparados para viver o lado bom da vida.

#desajustadosrules

 

Indomável Sonhadora – A catástrofe sob o olhar de uma criança

Os últimos meses têm sido bem movimentados para Behn Zeitlin. Em um pequeno intervalo de tempo, devido a estreia de seu primeiro longa-metragem, o nova-iorquino de 30 anos saiu da obscuridade do universo indie para arrebatar o Grande Prêmio do Júri de Sundance e Camera d’Or de Cannes (prêmio concedido para cineastas estreantes). A consagração definitiva veio com a indicação ao Oscar nas categorias de melhor diretor e melhor filme para o seu “Indomável Sonhadora”, uma bela fábula sobre inocência de uma criança que se depara com duras realidades do mundo adulto.

Baseado na peça em um ato “Juice and Delicious” de Lucy Alibar, acompanhamos Hushpuppy, uma menina de seis anos que vive no delta de um rio na Louisiana, em uma isolada ilhota chamada pelos locais de Banheira, com seu pai Wink. Seu pai aos poucos vai sendo consumido pelo alcoolismo e por sua saúde delicada. A situação se agrava quando uma tempestade levanta as águas ao redor de seu vilarejo e agora ela vê seu harmônico universo em colapso. Enquanto isso luta para sobreviver à catástrofe.

Nós enxergamos o universo assumindo tons de fabula, com os olhos da pequena protagonista, que também assume o papel de narradora. Então todas as tragédias e desafios que aparecem após essa catástrofe climática, ganham proporções pós-apocalipticas e os desafios eminentes do mundo real se manifestam na forma de uma besta pré-histórica colossal que a persegue. Ela passa a imaginar esse universo próprio numa espécie de escapismo da sua realidade quase impossível de se encarar de frente.

Zeitlin não menciona o furacão Katrina em nenhum momento da narrativa e isso não se mostra necessário. Apesar de todos os elementos fantásticos, a película é ambientada em um universo reconhecível com extrema pobreza e problemas climáticos visíveis, como o derretimento das calotas polares. Mesmo não sendo seu principal objetivo construir uma crítica sobre esses tópicos, o diretor consegue inserir a mensagem de maneira bem sutil.

Devido a seu orçamento extremamente reduzido, Behn Zeitlin se viu obrigado a escalar locais sem nenhuma experiência como atores. A idéia acabou adicionando a produção um excelente ar de autenticidade, em destaque para Hushpuppy e seu pai Winki. Dwight Henry encarna o pai da protagonista, uma figura paterna nada convencional, capaz de extrair do público as mais variadas opiniões e os sentimentos. Entretanto é para a protagonista mirim que nós direcionamos todas nossas atenções. Dentre cerca de quatro mil candidatas, Behn Zeitlin teve a felicidade de escalar a pequena Quvenzhané Wallis. Desde pequena, a novata já demonstra uma presença digna de veterana, em seu desempenho surreal para sua idade, mesclando inocência e doçura, atraindo todos os olhares para si.

Atrevo-me a dizer que nem em seus mais loucos devaneios, Behn Zeitlin esperava debutar com tanto prestigio na indústria cinematográfica. Mesmo perdendo a mão no melodrama em alguns momentos, o diretor alcança seu principal objetivo. “Indomável Sonhadora” oferece uma ponta de esperança em sua versão mais folclórica do universo, contrariando a desconcertante realidade.

A Hora Mais Escura – A caçada ao homem mais procurado da terra

A visão de Kathryn Bigelow sobre a guerra não pode ser considerado convencional. Bigelow mantém um olhar crítico, menos romântico e nunca adota uma postura ufanista, o que pode ser corroborado em sua abordagem ao vazio existencial dos conflitos bélicos em “Guerra Terror”, longa que lhe rendeu um Oscar de melhor diretor (a)- o primeiro da história concedido a uma mulher. Agora em “A Hora Mais Escura”, mais uma colaboração com o roteirista Mark Boal, a diretora explora a “conflito de inteligências” das guerras modernas e a obsessão americana, sintetizada em uma personagem, com a captura de Osama bin Laden.

O roteiro assinado por Mark Boal destrincha o trabalho de uma década do time de elite formado por agente militares e de inteligência, trabalhando em segredo ao redor do planeta, que devotaram suas vidas a um único objetivo: encontrar e eliminar Osama bin Laden. A operação é mostrada através dos olhos de Maya, obcecada analista da CIA responsável por perseguir a pista que desencadeou a morte de UBL (como os militares se referiam ao Osama).

Nos primeiros minutos do longa, já é possível perceber a seriedade na abordagem da diretora, com um breve  prólogo onde ouvimos uma série de ligações das vitimas no World Trade Center no dia 11/09. Logo a seguir assistimos o agente Dan aplicando suas técnicas de “interrogatório avançado” (termo eufemista para “tortura”) na presença da jovem agente Maya, que demonstra certo desconforto. Essa cena é interessante por dois motivos: primeiro demonstra o distanciamento de Kathryn Bigelow, que não se importa em abordar um tópico tão polêmico, deixando de lado o patriotismo excessivo que seria tão comum se esse filme fosse conduzido por outro diretor (#cof#Michael Bay#cof#). O segundo fato é que essa cena marca o ponto de partida para a obsessão e transformação da agente Maya, que forma o arco narrativo central da trama.

Maya é o centro da narrativa que se desenvolve no Oriente Médio, Washington DC e Virginia. Nós acompanhamos a agente rompendo uma série de obstáculos para provar suas teorias como sexismo e a dúvida de seus superiores. A personagem de Jessica Chainstain se mostra sempre fria e isolada com sua própria fixação. O desempenho de Jessica Chainstain é maravilhoso, tornando crível apenas com o olhar a metamorfose sofrida pela personagem, passando de uma jovem inteligente a uma mulher desgastada pelas baixas do conflito e obcecada com sua missão. O desempenho de Chainstain é valorizada pelo excelente elenco de apoio que conta com Jason Clarke, Jennifer Ehle, Mark Strong e James Gandolfini.

A diretora escolhe dividir a película em capítulos, adotando um tom quase documental a narrativa. No terceiro ato, na incursão que culminou na morte do Bin Laden, Bigelow mantém essa postura que prima pelo realismo, favorecida pela escolha do diretor de fotografia Greig Fraser que se alterna entre a câmera padrão e uma com visão noturna. Kathryn Bigelow não visa construir um suspense exagerado, ao invés disso oferece uma versão altamente crível de como a ação militar realmente deve ter acontecido.

Bigelow e Mark Boal não tentam usar o longa para expressar uma opinião política ou exageram extremamente nos eventos cruciais da ação que derrubou o homem mais procurado do mundo. “A Hora Mais Escura” em momento algum simplifica o discurso, acreditando na capacidade intelectual do espectador. As lágrimas e o olhar silencioso de Maya espelham a verdade, os sacrifícios e perdas de toda uma nação durante uma década. Um vácuo que talvez nunca seja preenchido.

Os Miseráveis – O musical tarja preta da temporada

Desde seu lançamento em 1892, “Os Miseráveis” se tornou um sucesso que reverberou através do tempo. O cerne da obra máxima de Victor Hugo está contido em uma questão social, onde uma pequena parcela da sociedade constrói sua riqueza à custa da miséria de muitos. Como vocês podem observar, essa questão acompanhou a evolução da nossa sociedade até os dias de hoje e por conta disso “Os Miseráveis” nunca saiu de moda e ganhou diversas adaptações para cinema, TV e teatro. A mais famosa dessas releituras é “Les Misérables”, musical composto por Claude-Michel Schonberg e Alain Boublil em 1980 e foi a escolha de Tom Hooper, logo após ser agraciado com um Academy Awards por “O Discurso do Rei, fazer uma adaptação cinematográfica homônima desse musical.

O roteiro de William Nicholson conta a jornada de redenção do infeliz Jean Valjean que após cumprir 19 anos de prisão por roubar um mero pedaço de pão é solto em liberdade condicional, no entanto ele foge e a desrespeita para começar uma nova vida. Perseguido implacavelmente pelo inspetor Javert durante todos esses anos, Valjean se torna um empresário bem-sucedido e ao conhecer a história  de sua ex-empregada, Fantine,  em seu leito de morte, decide criar sua filha Cosette.

Depois de tantas adaptações da mesma obra, certamente Hollywood queria um diferencial e é exatamente esse “algo mais” o principal problema de “Les Misérables”. Tom Hooper e Willian Nicholson decidiram produzir um longa quase que 100% cantado, onde a grandiosidade dos números musicais e a dramaticidade empregada nesses espetáculos é o principal objetivo, tirando o foco do desenvolvimento da narrativa. As duas horas e meia de projeção tornam-se um pouco enfadonhas após essa repetição extrema de números musicais que impressionam até vocalmente e visualmente, mas prejudica na construção da relação dos personagens.

Outra decisão inovadora de Tom Hooper foi registrar a performance de seus atores ao vivo, no set de filmagens (sem gravação prévia em estúdio). Essa inovação acabou por se tornar uma faca de dois gumes, pois atores menos dotados vocalmente como Russel Crowe claramente sofreram para alcançar algumas notas, prejudicando o produto final. Em contrapartida Anne Hathway foi capaz de arrancar lágrimas em sua interpretação honesta e solitária de “I Dreamed a Dream”, uma sensacional sequência sem cortes que exaltou o talento e a capacidade dessa adorável atriz. Samantha Barks é outra atriz que se sobressai em sua performance ao vivo de “On my own”, cantada pela sua fascinante Éponine que embora tenha ficado pouco tempo em tela, é capaz de conquistar o coração do público por sua complexidade, parecendo destinada a ser sempre ignorada por aquele que ama.

Hugh Jackman prova que é mais que um corpo sarado com garras de adamantium, nessa que pode ser considerada a atuação de sua vida. Além de seu inegável talento musical a entrega de Jackman na jornada de redenção de Jean Valijean é louvável e seu carisma contribui para construir a relação antagônica com o frio inspetor Javert, interpretado no modo automático por Russel Crowe.

O sofrimento e a miséria é o que norteia o longa, sendo assim as participações dos salafrários Thénardier de Sasha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, por mais que tragam um satisfatório alivio cômico, não se encaixa com a proposta narrativa, fora o fato de que sua caracterização faz parecer que eles acabaram de sair do set de um filme do Tim Burton. Amanda Seyfried e Eddie Redmayne, como a crescida Cosette e seu interesse amoroso Marius, respectivamente são prejudicados pelo roteiro que tenta vender um enlatado amor a primeira vista, difícil de engolir.

Talvez seja a condução de atores o principal mérito de Tom Hooper nessa fita, pois a necessidade do diretor de construir uma identidade estética (problema que vem desde o superestimado “O Discurso do Rei”) quase põe tudo por água a baixo. Hooper abusa de enquadramentos pouco convencionais, isolando os personagens no lado direito do vídeo, e abusa dos close-ups, mantendo a câmera grudada na cara dos atores, o que desperdiça o fantástico trabalho de design de produção, que constrói uma embasbacante Paris do século XIX. Tais decisões não contribuem em nada para o andamento da narrativa, só causam uma sensação incomoda de estranhamento.

Trocando diálogos por estrofes, certamente o longa pode sofrer algum preconceito por parte dos apreciadores de musicais mais convencionais ou por aqueles que odeiam o gênero. Entretanto, o longa é um espetaculo visual e vocal envolvente devido a interpretações carismáticas. Eu desafio qualquer um a assistir “Os Miseráveis” e não sair cantarolando “I Dreamed a Dream”.  😀

 

#TomHooperSucks