Oz: Mágico e Poderoso – Um conto de fadas genérico

Considerado pelo American Film Institute como o melhor filme familiar de todos os tempos, “O Mágico de Oz” (1939) encantou gerações durante décadas com seus marcantes números musicais (vai me dizer que você não lembra logo de “Somewhere over the rainbow”?) e com o uso da técnica do Technicolor. Aproveitando que os livros de L. Frank Baum sobre o universo de Oz estão em domínio público e também do feedback positivo do público com “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton, a Disney resolve contratar Sam Raimi para nos levar de volta para esse universo fantástico em ‘Oz: Mágico e Poderoso”, mas se esquece de contar uma história que valha a pena.

Cronologicamente anterior as aventuras de Dorothy, o texto de David Lindsay-Abaire e Mitchell Kapner narra a história do mágico charlatão do Kansas Oscar “Oz” Diggs que no meio de uma perseguição, devido a um de seus truques, é tragado por um tornado e transportado para o fantástico mundo de Oz. Ao chegar lá é confundido com o mágico da profecia local, que deveria por um fim aos problemas que os habitantes da Terra de Oz estavam enfrentando e como recompensa governaria o reino e desfrutaria de seu rico tesouro. Motivado pela sua enorme ganância e com a companhia do macaco alado Finley e da adorável Boneca de Porcelana, Oz conta com suas habilidades de ilusionismo e sua lábia para descobrir quem é bom e quem é mal, antes que seja tarde demais.

Devido às diversas leis de copyrights que protegem o clássico de 1939 da Warner, o diretor Sam Raimi e seus roteiristas tiveram que se desdobrar para não fazer nenhuma referência que acarretasse um grande problema judicial, por isso elementos consagrados do filme clássico não são mencionados. A dupla de roteiristas cria então um conto de fadas genérico e com um arco dramático previsível recheado de reações e resoluções simplistas. A desconstrução de um protagonista egoísta, mesquinho e mulherengo já foi usada em diversos outros filmes e a chave para tornar essa jornada previsível divertida é achar o interprete correto (Robert Downey Jr. com seu Tony Stark é o exemplo mais atual), o que não ocorre em “Oz”.

Certamente a escolha de James Franco é o principal problema da fita. O ator não demonstra nenhuma desenvoltura ao interagir no ambiente digital, carregando sempre um sorriso forçado e expressões exageradíssimas. Franco deixa de conferir a profundidade necessária para tornar crível essa jornada de transformação de caráter do personagem.

Mila Kunis decepciona também como a bruxa Theodora, embora boa parte da culpa deva ser creditada ao roteiro. Todo o drama e as motivações da personagem são explorados de forma superficial e a esperada transformação ocorre de forma abrupta e simplista, desperdiçando a oportunidade de aproveitar os conflitos vividos pela personagem.

Rachel Weisz se mostra bastante a vontade ao interpretar a maléfica Evanora, adotando o tom correto ao compor a manipuladora e vil bruxa. Já Michelle Willians interpreta Glinda, a bruxa boa, com doçura e leveza, conferindo a sua personagem uma aura quase angelical. Embora as duas personagens sejam rasas, as duas experientes atrizes fazem o seu melhor.

O diretor Sam Raimi faz uso de seu marcante estilo visual e conta com um competente trabalho de designer de produção. Contando com uma fotografia que abusa de um paleta de cores fortes, o longa impressiona visualmente com suas belíssimas paisagens digitais que são sempre ressaltadas pelo excelente trabalho de câmera de Raimi, criando planos abertos que exploram toda a imensidão do ambiente. Ocasionalmente o 3D é bem explorado quando o diretor se importa em trabalhar na profundidade de campo, mas em boa parte do tempo ele se apega a infantil estratégia de “jogar” objetos na platéia, desperdiçando todo o potencial do 3D.

O marcante trabalho de efeitos especiais é responsável por criar os dois melhores personagens do filme, o macaco alado Finley e a adorável bonequinha de porcelana. Devido ao excelente trabalho de captura de movimento, as performances de Zack Braff e Joey King são refletidas fielmente nas criaturas digitais. Ambos protagonizam as cenas mais divertidas do longa.

“Oz: Mágico e Poderoso” é beneficiado pela sensação de urgência nos momentos de ação, uma característica marcante de Sam Raimi, e consegue envolver os espectadores durante toda a projeção. Com pequenas referências pontuais ao clássico de 1939, o longa não consegue reproduzir a magia e inocência do original e se entrega às situações banais, se sustentando apenas na nostalgia de retornar a estrada de tijolos amarelos.

 

Renan Sena

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