O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – Como é bom voltar a Terra Média

Entre 1997 e 2003, Peter Jackson realizou de forma magnífica a considerada infilmável “trilogia do Anel” e reservou para si um lugar no Olimpo hollywoodiano ao conquistar dezessete Oscars, seis Globos de Ouro e acumular US$ 2.925.155.189 em bilheteria. Quase uma década depois do fenômeno de “O Senhor dos Anéis” e depois de muitas brigas judiciais entre a família de J.R.R. Tolkien e a New Line e da substituição de Guilermo del Toro por Peter Jackson na direção do projeto (GdT decidiu abandonar a cadeira de direção para se dedicar a “Pacific Rim”, mas continuou como produtor e roteirista), finalmente somos convidados a embarcar em mais uma viagem a Terra-Média em “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”.

Roteirizado por Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo Del Toro a aventura se passa 60 anos antes de “O Senhor dos Anéis” e segue a jornada épica de Bilbo Bolseiro para recuperar o Reino dos Anões de Erebor do temido dragão Smaug. Convidado de repente pelo mago Gandalf, Bilbo se vê entrando na aventura com 13 anões liderados pelo lendário guerreiro Thorin Escudo-de-Carvalho. Sua viagem irá levá-los a lugares selvagens, passando por terras traiçoeiras repletas de goblins, orcs, wargs, aranhas gigantes, transmorfos e feiticeiros. Originalmente “O Hobitt” seria realizado em duas partes, mas posteriormente a equipe de produtores decidiu dividi-lo em três. A fim de estabelecer de fato uma hexalogia, os roteiristas se apropriaram de informações dos Apêndices e do próprio Silmarillion (por que não?).

Tais decisões tomadas as pressas, são responsáveis por alguns problemas de estrutura no longa.O primeiro ato é um pouco alongado por apresentar os novos personagens e suas origens (dois magnificos prólogos são utilizados para isso)  mas se mantém no ritmo.Mas esse ritmo e foco é conturbado no segundo ato com a adição de um “novo” personagem, Radagast – O Castanho. Com o intuito de costurar situações que se relacionem com a primeira trilogia, Radagast é apresentado de forma caricata e espalhafatosa , apenas para alertar a Gandalf que um antigo mal despertou na floresta. Tal fato promove o lendário Conselho Branco, onde Gandalf, Elrond, Galandriel e Saruman (no lado dos mocinhos) discutem o possivel destino da Terra-Média.

Um dos maiores acertos da equipe de roteiristas foi tomar certas liberdades criativas a fim de conferir aos personagens centrais motivações mais nobres. Enquanto na obra original os anões partiram nessa demanda visando principalmente retomar seus tesouros, no longa eles anseiam em retornar para sua terra natal, após ver seu grandioso reino cair e terem se, limitado a trabalhos mais humildes na Terra-Média. Essa liberdade criativa também foi essencial para criar um antagonista (Azog, o Profano), devido à carência de um nessa primeira parte da jornada.

Peter Jackson é profundo conhecedor do universo Tolkien e respeita o material original ao máximo. PJ emprega uma atmosfera mais humorada e inocente como na obra original, mantendo o tom lúdico com as músicas dos anões, mas também procura adicionar um pouco de dramaticidade com o intuito de manter a fidelidade do público mais maduro que o acompanha desde “O Senhor dos Anéis”.

A relação dos anões com Bilbo define esse espírito aventureiro do longa. Entre os ananos, apenas Thorin e Dwalin possuem relevância emocional durante a projeção. Thorin Escudo-de-Carvalho, vivido por Richard Armitage, é um verdadeiro líder que carrega toda a responsabilidade de reaver seu reino e reconstituir lá a morada dos anões. Enquanto os outros integrantes da companhia se diferenciam apenas por sua aparência física.

Já Bilbo Bolseiro possui dois intérpretes: Ian Holm e Martin Freeman. O veterano Ian Holm retorna a interpretar Bilbo na fase idosa, empregando um certo saudosismo ao narrar o começo de sua aventura. Já Martin Freeman encarna um Bolseiro relaxado, inteligente e pacato e doa ao personagem boas doses de seu marcante humor inglês. Freeman demonstra um timing perfeito com seus companheiros de cena, principalmente Ian McKellen, e isso é suficiente para se estabelecer como protagonista, por mais que durante o segundo ato ele tenha se tornado um personagem periférico.

Dizer que Ian McKellen é um ator extraordinário pode soar um pouco redundante, mas convenhamos o cara chuta bundas! O veterano McKellen volta a interpretar seu personagem favorito, Gandalf – o Cinzento, mais divertido e relaxado (fumando seu cachimbo de Old  Toby).Outro personagem icônico da Terra-Média que marca presença nesse longa é o Smeagol/Gollun vivido pelo fantástico Andy Serkis. Beneficiado pelo avanço na tecnologia de captura de movimentos da Weta, Serkis é um show a parte com seu Gollum que convive com sua personalidade quase infantil e com seu lado mais sombrio. A cena das Adivinhas no Escuro é de tirar o fôlego.

Falando em avanços tecnológicos, o filme é no aspecto técnico irretocável. O designer de produção Matt Aitken fez um excelente trabalho na criação dos diversos monstros digitais, como o repugnante Rei Orc e os três Trolls da Montanha que demonstram uma gama de detalhes sensacional mesmo na altíssima resolução dos 48 fps . O excelente trabalho da visual também se faz presente na construção das magníficas locações como Valfenda, Erebor e a na caverna subterrânea dos goblins. Tudo isso convivendo coma fotografia extremamente saturada de Andre Lesnie, que faz uso de cores mais quentes que criam uma atmosfera mais fantástica e épica, enquanto usa sombras  e tons mais sombrios à medida que o perigo se aproxima.

Toda essa aventura na Terra-Média se desenvolve ao som de Howard Shore que apela para a nostalgia dos fãs ao usar temas marcantes da “trilogia do Anel” e para a variação “Song of The Lonely Mountain”, principal tema dos anões.

“O Hobbit – Uma Jornada Inesperada” marca o inicio de um projeto ambicioso que não poderia estar em mãos mais competentes. É um inicio honesto,inocente e aventureiro de uma história que tende a amadurecer e se tornar cada vez mais sombria. As comparações com “O Senhor dos Anéis” é inevitável, porém injusta, pois são obras com propostas diferentes. Esse é só o começo, muita coisa ainda vai rolar até a Batalha dos Cinco Exércitos, então nos resta aguardar e confiar no Peter Jackson. Enquanto isso, anime-se: ESTAMOS DE VOLTA A TERRA-MÉDIA!

Apêndice: Os 48 quadros por segundo

Talvez esse seja o tópico mais polêmico nas últimas duas semanas: assistir ou não assistir “O Hobbit” em 48 fps? Assisti duas versões do longa (3D HFR E 3D) e posso afirmar que a diferença entre as duas é enorme. Primeiramente, levei um tempo para me acostumar com a impressão de velocidade acelerada devido ao frame rate maior. Esse fato é absolutamente compreenssivel, pois por toda nossa vida como espectador cinematográfico estamos acostumados com 24 fps, então nosso cérebro leva um tempo para se acostumar porque agora está recebendo o dobro de informação do que o habitual.

Visualmente é inegável a qualidade superior de resolução, provocando um certo hiper-realismo que acaba valorizando o trabalho da equipe de efeitos visuais e de maquiagem do longa. Somos capazes de observar com mais precisão pequenos detalhes de textura como o volume da barba dos anões, detalhes dos figurinos e etc.

O uso do HFR acaba solucionando um problema típico do 3D, pois esse recuperando as cores da fotografia que costumam ser escuras durante a projeção em três dimensões. Peter Jackson poderia ter aproveitado essa nova tecnologia e maximizado os efeitos do 3D, ao invés de usar profundidade de campo pequena, se contentando apenas em “arremessar” coisas no espectador e passarinhos “adentrando” o portal aberto na sala de cinema para a Terra-Média.

Com certeza o HFR é uma tecnologia fantástica, mas está longe de ser empregada em todo seu potencial. Bem-vindos ao futuro do cinema!

Renan Sena

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s