Oblivion – Sci-fi de qualidade é sempre bom

É uma característica recorrente da ficção-científica oferecer um vislumbre do fim da vida na Terra, trazendo consigo interessantes questionamentos existencialistas. É exatamente nessa vibe que se desenvolve o ambicioso “Oblivion”, projeto desenvolvido por Joseph Kosinski desenvolvido a partir de sua própria graphic novel.

Roteirizado pelo próprio Kosinski com o auxilio de Karl Gajdusek e Michael Arndt (responsável pelos próximos episódios de Star Wars) o longa é ambientado em 2077 num universo pós-apocaliptico, onde o preço para vencer a guerra contra invasores alienígenas foi a própria Terra, que se encontra devastada devido ao uso de ogivas nucleares. Após a migração da população terráquea para Titã (a maior lua de Saturno), nosso planeta conta apenas com Jack Harper e sua companheira Victoria, para manter em funcionamento o maquinário que extrai recursos importantes que restaram de nosso planeta, mas vez ou outra são obrigados a lidar com os remanescentes dos “saqueadores aliens” que fazem de tudo para sabotar essas instalações de vital importância. A rotina de Jack se limitava a vagar pelas ruínas da Terra, consertando os drones que combatiam as ameaças as hidroplataformas extratoras, mas ao resgatar uma misteriosa astronauta, ele acaba descobrindo a verdadeira natureza de seu trabalho e a relevância que essa mesma mulher tem em seu passado.

Iniciando com uma narrativa expositiva, o longa não consegue prender a atenção do espectador durante o primeiro ato, devido a um ritmo moroso e a diálogos arrastados. Esses problemas logo são superados a medida que ocorrem diversas reviravoltas na trama que se desdobram uma após a outra o que exige do espectador um certo engajamento para acompanhar o fluxo intenso de informações que vão formando um complexo quebra-cabeça. Uma aposta ousada do diretor que não apela para as resoluções simplistas tão comuns nos dias de hoje,acreditando na capacidade intelectual do espectador.

O diretor se apropria de diversos elementos de obras consagradas do gênero, sendo possível observar referências clássicas a “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, do mestre Stanley Kubrick, e a “Lunar” do badalado Duncan Jones. Entretanto, Kosinski se preocupa em criar seu próprio universo e para isso explora ao máximo o potencial de seu competente designer de produção. Apostando numa abordagem estética ultra tecnológica, os ambientes e veículos são criados a partir de um conceito de designer clean, tendo como base um branco asséptico. Contrastando com os equipamentos rústicos e ambientes escuros habitados pelos Scafs. Esse contraste também é ressaltado graças a excelente fotografia do oscarizado Claudio Miranda (vencedor do prêmio máximo da Academia por seu trabalho em “As Aventuras de Pi”) que abusa de uma paleta de cores frias, abrindo uma rara exceção para quando Jack se encontra em sua cabana em frente a um lago, onde a fotografia ganha cores mais quentes, reforçando a ligação de Jack com o planeta.

O longa possui como principal força a imponente figura de Tom Cruise, que encarna uma figura solitária, questionadora e assombrada por estranhos vislumbres de seu passado. Seu Jack Harper segura boa parte do filme nas costas, sendo um desafio superado sem muito esforço pelo astro, que confere sua habitual intensidade ao personagem. Outro destaque no elenco é Andrea Risenborough, que confere um distanciamento emocional, mas ao mesmo tempo traz um certo conflito a sua complexa Vika. Olga Kurylenko (a nova musa de Terrence Malick) apesar de linda, não confere carisma a sua Julia Harper, não aprofundando suficientemente a personagem para justificar sua forte relação com Jack. O elenco também conta com participações especiais importantes de Morgan Freeman, Melissa Leo e Nikolaj Coster-Waldau (aka Regicida).

Joseph Kosinski já havia demonstrado em “Tron – O Legado”, ser capaz de formar parceiros competentes para a composição da trilha sonora, quando na ocasião trabalhou diretamente com o duo francês Daft Punk. Agora em “Oblivion” ele conta com o apoio de Anthony Gonzalez (M83) e Josh Trapanese para compor uma pontual trilha sonora, que intensifica momentos-chave ao longo da projeção. Vale a pena ficar na sala durante os créditos finais só para ouvir o “Oblivion”, tema principal do longa, que conta com a parceria de Susanne Sundfør.

Um projeto ambicioso de um diretor que já da mostras para indústria de todo o seu potencial, “Oblivion” possui idéias bastante interessantes Pode não ser um daqueles filmes que redefinem o gênero, mas se enquadra no estilo de obra rara de se ver atualmente, já que os estúdios se preocupam mais em repetir fórmulas consagradas para encher seus cofres. Os poucos problemas de estrutura certamente não prejudicam o produto final, que se prova um sci-fi da mais alta qualidade.

 

Renan Sena

 

 

 

 

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