A Morte do Demônio – Uma ode ao gore

Mensalmente chegam as salas de cinema ou diretamente em home vídeo, diversos exemplares do gênero de terror. Em sua esmagadora maioria são filmes que pouco se importam em construir uma estrutura narrativa e as motivações de personagens, se apropriando de diversos clichês estabelecidos durante décadas, agradando a jovens adolescentes acéfalos que se impressionam com qualquer porcaria. Peço que não considerem essa observação preconceituosa da minha parte, pois é uma exatamente isso que presencio quando tento assistir um filme do gênero no cinema. Talvez a culpa não seja da audiência em si, mas do que eles se acostumaram a considerar apavorante.

Determinados subgêneros do terror foram repetidos a exaustão, tornando possível qualquer espectador prever todos os acontecimentos do filme, sem nenhum conhecimento prévio, apontando as decisões burras dos personagens e as conseqüências que elas terão. Para ser sincero, esse pequeno ritual que todos praticamos durante a projeção de um filme de terror, acaba se tornando umas das poucas diversões, salvo as mortes que estão sendo boladas de maneiras cada vez mais criativas, responsabilizo a franquia “Premonição” por esse fato.

O terror é uma ferramenta poderosa quando bem utilizada, desse nicho saíram grandes cineastas como Peter Jackson, Alfred Hitchcock, David Cronemberg  e Sam Raimi. O objeto de analise de hoje é o remake de uma das obras mais icônicas de Sam Raimi A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981), filme que alavancou sua carreira em Hollywood e ajudou a definir o subgênero “jovens em uma cabana no meio do nada”. Dessa vez, Raimi assume a cadeira de produtor e passa o bastão para o uruguaio Fede Alvarez, que recebe sua primeira oportunidade em Hollywood após ganhar notoriedade com o curta Ataque de Pânico!.

O roteiro escrito por Alvarez  em parceria Rodo Sayagues (teorias da conspiração dizem que uma possível revisão tenha sido feita por Diablo Cody) acompanha o processo de intervenção que David, Eric, Olivia e Natalie decidem fazer com Mia. Eles decidem ir para uma cabana no meio da floresta, visando ajudar a jovem, em seu processo de reabilitação após sofrer sua segunda overdose. Ao longo da estadia dos jovens da cabana, conhecemos um pouco de seu drama familiar, mas tudo se complica quando eles descobrem o “Livro dos Mortos” e liberam uma entidade demoníaca que possui um a um, com o intuito de matá-los.

Com relação a estrutura narrativa, o diretor escolhe uma abordagem mais pesada, sem dar brecha para os alívios cômicos tão comuns nos longas contemporâneos. A idéia de envolver dramas familiares até é interessante, mas tudo isso é desenvolvido em tão pouco tempo e soa tão forçado que fica difícil para o espectador (por mais boa vontade que ele tenha) comprar essa idéia.  As atuações do jovem elenco não contribuem nem pouco para criar uma identificação com os personagens, o que acaba tirando o impacto de suas mortes. Shiloh Fernandez está lá, para as fãs de Gossip Girl, tão expressivo quanto um pedaço de madeira, enquanto isso Jane Levy faz o possível para conferir a profundidade necessária a sua problemática Mia. Em contrapartida o Eric, de Lou Taylor Pucci funciona muito bem e trás um frescor que contrasta com o apático elenco. Mas não é nada que se aproxime do Ash, personagem imortalizado por Bruce Campbell na obra original.

Apesar de não mostrar muito jogo de cintura ao conduzir seu jovem elenco, Fede Alvarez é bem sucedido em sua abordagem que preza pelo choque e pela violência, que é ressaltada pelo excelente uso de efeitos práticos. O diretor usa a violência como uma ferramenta de catarse, criando momentos 100% devotados ao gore. Fãs de cérebros, vísceras, chuvas de sangue (literalmente) e mais diversos tipos de amputações estarão bem servidos.  Cenas clássicas como a do “estupro na floresta” ganham suas releituras, prestando um merecido fanservice.

A fotografia de Aaron Marton é fantástica, usando uma paleta de cores sombria, ele repete em algumas ocasiões o movimento de câmera em perspectiva consagrada nos três primeiros filmes da série, nos colocando na posição da entidade demoníaca, criando momentos de nostalgia para os fãs mais devotos. Composta por Roque Baños, a pulsante trilha sonora está sempre presente e ajuda a construir o clima de terror e aflição pretendido. Alvarez também conta com um trabalho fantástico dos departamentos de maquiagem e direção de arte, o que acaba elevando o filme ao status de tecnicamente irretocável.

O filme tenta ter sua identidade própria e para isso escolhe se inserir em um contexto mais dramático, uma boa idéia mas que é esquecida ao longo do percurso. Além disso, algumas coincidência e  escolhas infantis tomadas com o intuito de prolongar mais as situações de horror, também tiram um pouco a força do produto final. Me respondam, quem em sã consciência vai para um porão enfrentar uma entidade demoníaca com uma seringa, quando tem em mãos uma motoserra e uma cal.12?

“O filme mais apavorante que você verá na vida” como vendia o pôster? Duvido muito, mas certamente esse é um exemplar de terror daqueles difíceis de encontrar atualmente, que mantém os traços gore do original, mas tenta se estabelecer como uma obra autônoma.

OBS.: Se você for muito fã da série, vale a pena ficar até o final dos créditos.

Renan Sena

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s