Gravidade – Ficção-cientifica visionária e inspiradora

Alfonso Cuaron é um dos diretores mais talentosos quando se trata em conciliar um grande orçamento a obras com tramas consideravelmente intimistas. O hiato de seis anos desde o fabuloso Filhos da Esperança, foi devido a um trabalho árduo dedicado ao desenvolvimento  de Gravidade. O resultado de tamanha dedicação é uma obra-prima da ficção cientifica contemporânea que mesmo com a simplicidade de sua premissa básica é capaz de fazer o espectador embarcar numa jornada de superação a própria tragédia.

O roteiro escrito em parceria entre o diretor e seu filho Jonas Cuaron narra a jornada da Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e do astronauta veterano Matt Kowaski (George Clooney) que durante uma missão destinada a fazer reparos no telescópio Hubble, recebem a noticia de que a explosão de um satélite russo ocasionou uma reação em cadeia gerando uma chuva de detritos espaciais em direção a órbita que eles estão.  O acidente acaba destruindo a estação espacial e deixando os dois isolados no espaço com uma pequena reserva de oxigênio. Começa então uma angustiante luta pela sobrevivência.

Cuaron explora o gênero de ficção-cientifica na sua natureza mais básica, que é buscar compreender a finitude humana, usando como a ciência como pilar para o desenvolvimento da narrativa. Através de um fantástico conceito de escala entre o homem e o Universo, explorando conceitos primários da física newtoniana, o texto constrói metáforas belíssimas sobre a dificuldade humana em lidar com situações que fogem ao seu alcance. A tragédia humana é o principal tema abordado, essa busca incessante pelo controle interior que passa do sofrimento à superação é o principal alicerce para o desenvolvimento da protagonista. O ritmo forte e equilibrado entre tensão, contemplação e reflexão cria a sensação de um passeio numa montanha russa de emoções ao longo da projeção.

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O renascimento de Ryan Stone

Cuaron e seu habitual parceiro Emmanuel Lubezki (diretor de fotografia) exploram ao máximo o conceito de ambiente com gravidade zero, na concepção de seus movimentos de câmera. Criando planos-sequência embasbacantes, ele passeia com liberdade pela vastidão do espaço sideral, alternando ângulos subjetivos e objetivos com maestria e cortes quase imperceptíveis.  Outro aspecto positivo é o excelente o uso do 3D, que através de uma noção de profundidade de campo bem ampla é usado em prol do desenvolvimento da narrativa e não somente para “arremessar” objetos no público. O 3D ajuda a potencializar a ideia de vastidão do espaço, criando uma sensação de impotência e solidão.

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Sandra Bullock se divertindo em gravidade zero

O roteiro é bastante econômico em seus diálogos, mas essas breves interações são essências para criar um forte laço entre o público e os protagonistas. Através das conversas de Ryan com seu parceiro Matt Kowaslki, descobrimos a natureza de sua solidão – a morte de sua filha de quatro anos.  Sandra Bullock (carrega o filme nas costas) está fantástica na construção de sua personagem, transparecendo melancolia, vulnerabilidade e coragem, conseguindo fazer com que os espectadores torçam por sua sobrevivência em meio a todo o caos. A participação breve, porém sensacional, de George Clooney é responsável pro trazer breves momentos de suavidade ao longa. Clooney emprega sua canastrice habitual ao personagem que nos diverte com seus relatos pessoais e nos emociona com seu altruísmo.

O trabalho do departamento de edição e mixagem de som aliado a ótima trilha sonora composta por Steve Price servem como um agente catalisador, evocando as mais diversas experiências sensoriais da película. Ora a trilha marcante se mostra presente, ora apenas o silêncio brutal e esmagador.

Gravidade é de longe uma das experiências cinematográficas mais completas que Hollywood nos proporciona em anos. Tecnicamente irrepreensível e visualmente deslumbrante, Cuaron é capaz desenvolver sua metáfora espacial de superação a nossas próprias tragédias de maneira simples. Uma história do cacete! Melhor filme do ano!

Obs.: Assistam nos formatos IMAX ou XD se possivel.

Renan Sena

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