O Hobbit: A Desolação de Smaug – A ostentação de Peter Jackson

J.R.R. Tolkien escreveu O Hobbit de forma bastante despretensiosa, estruturando o arco narrativo de maneira bem simples: éramos apresentados a um grupo de personagens, que partiam em uma jornada e enfrentavam diversos desafios para derrotar um dragão, a fim de reclamar para si suas riquezas e recuperar sua antiga morada. Originalmente, o livro de 300 páginas seria adaptado em duas partes, mas a tentação de explorar ao máximo o rico universo construído por Tolkien, fazendo uma ponte com a trilogia do anel e construindo de fato uma hexalogia, aproveitando para faturar mais alguns bilhões em bilheteria foi forte demais. Em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, primeiro capitulo dessa nova trilogia, fomos apresentado a Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) e a companhia dos anões liderada por Thorin, Escudo de Carvalho (Richard Armitage). O resultado foi um longa com os dois primeiros atos bastante arrastados, mas que nos trouxe de volta a Terra-Média de forma bastante aventureira e lúdica. Sabendo que legião de fãs esperava ansiosa pelo segundo capitulo dessa jornada, Peter Jackson sabia o peso da responsabilidade que tinha.

O roteiro de Peter Jackson, Gullermo Del Toro, Phillipa Boyens e Frank Walsh, começa do exato ponto em que o primeiro longa parou, mostrando Bilbo e seus amigos fugindo com os orcs em seu encalço. Os anões continuam em sua jornada rumo a Erebor, com o intuito de enfrentar o dragão Smaug (Benedict Cumberbath) e recuperar seu reino e suas riquezas. Passando pela Floresta das Trevas, onde topam com os elfos, liderado pelo arrogante rei Thranduil (Lee Pace), e por Esgaroth, contando com a ajuda ou não do arqueiro Bard (Luke Evans), o caminho para a Montanha Solitária é recheado de perigos.  Enquanto isso, os sinais de que uma força maligna despertou estão cada vez mais óbvios, então Gandalf (Ian McKellen) se vê forçado a abandonar seus pequenos companheiros e parte em sua missão paralela.

Martin Freeman nasceu para ser um Hobbit

Martin Freeman nasceu para ser um hobbit

O tom lúdico da primeira parte dessa aventura é deixado para trás, dando lugar a uma atmosfera mais sombria. A intenção de Peter Jackson em tomar algumas liberdades criativas e adicionar alguns elementos advindos das outras obras do Tolkien (os apêndices de “O Senhor dos Anéis”) tem o objetivo de tornar a história mais madura e fortalecer o link com a trilogia do anel. Uma dessas adições serve para fortalecer a construção do arqueiro Bard (Luke Evans). O personagem ganha mais tempo,ao contrário do livro, para ter um desenvolvimento e suas motivações mais trabalhadas. O personagem é desenvolvido com uma forte personalidade e é transformado quase como um revolucionário na luta contra a opressão do tirano mestre da Cidade do Lago (Stephen Fry)

Mas alguns desses arcos narrativos são iniciados e não concluídos, nos fazendo questionar se o resultado final não ficaria mais satisfatório com a ausência dessas subplots. Um dos exemplos mais icônicos é a esquisita tensão sexual que ocorre entre Tauriel (Evangeline Lilly) e o anão Kili (Aiden Turner), formando um bizarro triângulo amoroso, já que Legolas (Orlando Bloom) também estava interessado na capitã da guarda.

A elfa Tauriel, interpretada pela bela Evangeline Lily é uma dessas criações originais para o filme. A personagem criada para suprir a falta de personagens femininas no material original, funciona como uma figura de presença forte, sendo o motor que gera situações dinâmicas entre diversos personagens, principalmente com Legolas. Orlando Bloom interpreta uma versão mais feroz e menos sábia do príncipe elfo, empregando altas doses de selvageria enquanto assassina orcs das maneiras mais estilosas possíveis.

Tauriel <3

Tauriel ❤

São os elfos que protagonizam as cenas de combate mais elaboradas com graciosidade e velocidade. Os anões trabalham em conjunto para combater a ferocidade dos orcs. Com diversos momentos de ação intensa e quase ininterrupta, tudo acontece de maneira fluida e inteligível. Com seus movimentos de câmera característicos e um plano sequência de tirar o fôlego, Peter Jackson conduz a icônica cena dos barris, tornando-a de longe o que de melhor aconteceu nessa trilogia até o momento.  Outro confronto, digno de nota, ocorre entre Gandalf e o Necromante. A batalha entre os dois é tensa e impressiona pelo excelente trabalho de fotografia, transformando o embate num duelo entre luz e sombras, que termina por revelar a verdadeira natureza desse misterioso vilão.

O tema central da narrativa deixa de ser o nobre sentimento de retornar ao lar, pois à medida que nossos heróis se aproximam da Montanha Solitária e das riquezas lá guardadas, a ganância passa a dominar seus sentimentos. Claramente, o mais afetado pela proximidade do tesouro do povo de Dúrin é Thorin. Vivido por Richard Armitage, ele é construído com um personagem que carrega uma enorme responsabilidade sozinho, cujos sentimentos se confundem com raiva, medo, arrogância e uma certa insanidade. A principio parece quase impossível se afeiçoar a ele, mas conhecendo Peter Jackson, pode-se esperar algo grandioso para Thorin até a esperada Batalha dos Cinco Exércitos.

A cobiça também assombra os sentimentos mais profundos de Bilbo Bolseiro, com o hobbit começando a sofrer uma pequena influência do Anel que obteve na caverna dos goblins. A performance de Martin Freeman é cada vez mais magnética, com o britânico transbordando carisma toda vez que aparece em cena. Infelizmente com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, fica a sensação de que o personagem não é aproveitado como deveria. Seu bom humor e química com Benedict Cumberbatch são essenciais no fantástico diálogo entre Bilbo e Smaug.

A revelação do dragão Smaug era uma das coisas mais aguardadas dessa sequência, com a Weta  excedendo todas as expectativas. A magnitude e a gama de detalhes na concepção do dragão digital é fantástica. A ferocidade e imponência da criatura combinadas ao fantástico trabalho de voz de Benedict Cumberbatch, criam uma das feras mais assustadoras e maravilhosas já vistas na Terra-Média.

"I'm fire! I'm death!"

“I’m fire! I’m death!”

Por sinal o trabalho do departamento de efeitos especiais só não é impecável, pois escorrega algumas vezes na construção de alguns dublês digitais em cenas de ação, onde fica evidenciando sua artificialidade. Salvo esses pequenos deslizes, eles continuam dando um show a parte na concepção das criaturas e das imponentes paisagens. Os designers de produção continuam sem iguais, concebendo os mais esplendorosos cenários, como o estonteante palácio do rei Thranduil na Floresta das Trevas e a cidade flutuante de Esgaroth.

O 3D acaba não colaborando como ferramenta narrativa, sendo apenas utilizado para arremessar objetos na platéia a cada 40 minutos para justificar o seu uso. A escolha de filmar o longa em 48 em quadros por segundo continua sendo ousada e garantindo um belo grau de hiper-realismo a película.

A trilha de Howard Shore melhorou consideravelmente, incorporando novos temas e deixando de martelar a música dos anões a cada 20 minutos. Por mais que ainda recorra à nostalgia dos fãs de longa data ao repetir músicas já consagradas da trilogia do anel, a trilha cumpre seu papel, acompanhando de perto os momentos de tensão e ação.

 O Hobbit: A Desolação de Smaug sofre por se tratar de um capitulo intermediário e um segmento inacabado. Mesmo que fique a sensação de que o filme funcionaria melhor com pelo menos um corte de 30 minutos, o longa cumpre perfeitamente sua responsabilidade de servir como um ponto de transição entre uma aventura inocente ao prelúdio de uma batalha entre diversas facções da Terra-Média. Com um final interrompido de maneira angustiante, as expectativas para a conclusão dessa fantástica história não poderiam ser maiores. Será um longo ano de espera até dezembro de 2014.

Renan Sena

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