A Vida Secreta de Walter Mitty – Um protesto contra a apatia

Não vou mentir para vocês, nunca fui fã do trabalho do Ben Stiller. Admito ter certo preconceito em relação ao trabalho do rapaz por não ser fã do seu estilo cômico, mas devo admitir sua competência por trás das câmeras, principalmente depois do excelente Trovão Tropical. Em seu quinto trabalho como diretor de longa-metragem, Stiller embarca em uma jornada intimista, que marca um processo de reinvenção do ator/diretor. A Vida Secreta de Walter Mitty é um daqueles filmes capazes de conversar diretamente com o espectador, mas não se enganem com o que estão escrevendo por ai, não é um filme de auto-ajuda.

Roteirizado por Steve Conrad (A Procura da Felicidade) conhecemos Walter Mitty (Ben Stiller), um cara introspectivo que trabalha como gerente da seção de negativos da revista Life. Walter possui uma imaginação bastante fértil, então ele acaba se entregando aos seus sonhos acordados para tentar compensar o fato de pouca coisa excitante acontecer em sua vida. Falta coragem até para se aproximar de sua nova colega de trabalho, Cheryl Melholf (Kristin Wiig), a qual ele é secretamente apaixonado (eu te entendo, Walter! :'(). Quando é anunciado que a versão impressa da revista será extinta, Walter percebe que corre risco de perder seu emprego de 16 anos. A situação piora quando o negativo da foto, enviada pelo lendário Sean O’Connel (Sean Peen), que supostamente estampará a capa da última edição da revista desaparece. Para salvar seu emprego, Walter parte em uma aventura em busca da foto, que o leva a escalar montanhas, fugir de vulcões em erupção e até a lutar com tubarões.

As vezes a imaginação é mais interessante do que a realidade

As vezes a imaginação é mais interessante do que a realidade

 O texto de Conrad trás uma provocação declarada, funcionando como um protesto contra a apatia. A jornada de auto-descoberta do personagem é repleta de mensagens capazes de despertar sentimentos diversos no espectador que estiver receptivo a captá-las. Não se trata de uma história sobre um fracassado solitário, mas sim um cara que não conseguiu colocar em prática tudo o que queria fazer na vida e viu a oportunidade de sair da acomodação e se reinventar.

 O humor pastelão e sonso, marca registrada de Ben Stiller, é deixado de lado, dando lugar a um estilo cômico mais sutil e pontual, funcionando principalmente durante os devaneios do protagonista. O diretor por sinal acerta em cheio nesses momentos, principalmente pela sutileza adotada, fazendo o público questionar, em alguns momentos, se está acompanhando a imaginação do personagem ou algo real.

Como ator, Ben Stiller se mostra mais contido do que o habitual, e nos convence ao longo de todas as mudanças que seu personagem passa ao longo dessa viagem. É muito fácil para o publico se identificar com seu Walter Mitty, afinal quem nunca se perdeu em devaneios onde espancava seu chefe babaca ou conquistava a garota dos seus sonhos (eu particularmente, perco muito tempo nesse segundo). Kristen Wiig, conhecida por seu fantástico talento cômico, não tem muito espaço para explorá-lo, mas aproveita seu tempo em cena para construir uma personagem adorável e nos convence como o interesse romântico do protagonista.

Como não se identificar com Walter Mitty?

Como não se identificar com Walter Mitty?

Stiller equilibra um tom melancólico e esperançoso nessa aventura, que é reforçado com um trabalho de fotografia que opta pelo uso de uma paleta de cores frias que vai gradualmente assumindo tons mais vivos. Seu trabalho por trás das câmeras é espantosamente competente, principalmente pelo uso inteligente das fantásticas locações. Ora fazendo uso de planos abertos para explorar as belezas da Islândia e Groenlândia, ora abusando dos closes de maneira reflexiva para ilustrar os momentos que o personagem está de fato aprendendo a verdadeira experiência da vida, o diretor não desenvolve apenas um personagem, mas como todo um conceito de maneira bastante eloquente.

A condução cadenciada de Stiller, quebra um pouco da vibe de road movie, que também é prejudicada graças a alguns problemas de montagem que dificultam para o espectador se localizar no tempo que a ação se passa. As inserções forçadas de algumas marcas de cadeia de restaurantes, sites de relacionamento e bancos incomodam devido ao excesso.

Aprendi com A Vida Secreta de Walter Mitty a nunca mais subestimar o Ben Stiller, pois em tempos em que Hollywood esqueceu de contar boas histórias, esse cara acreditou nesse projeto fantástico. Mesmo com todo o preconceito do mundo, seria burrice minha ignorar algo tão inspirador e relevante. Esse longa possui energia e um espírito motivador absurdamente forte. Ah se todo Power-point fosse assim…

Renan Sena

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