O Lobo de Wall Street – Uma ode a cobiça

O cineasta Martin Scorsese se estabeleceu em Hollywood com seus filmes de violência urbana, cujos personagens sempre contam com uma construção bastante complexa, senso de moral duvidoso e as mais diversas perturbações.  Longas como Cabo do Medo, Cassino, Taxi Driver e Os Bons Companheiros têm como principal marca seus anti-heróis e sua paranóias. Se você pensou que aos 71 anos, Scorsese se dedicaria a filmes mais leves como A Invenção de Hugo Cabret, pensou errado! Em O Lobo de Wall Street o experiente diretor demonstra um vigor e um espírito subversivo absurdo, ao expor os bastidores e esquemas de uma quadrilha de executivos de Wall Street.

O roteiro de Terence Winter, baseado no livro autobiográfico do ex-corretor da bolsa de valores Jordan Belfort, nos joga direto na cabeça do jovem financista de Wall Street. Ambicioso, logo descobre que a verdadeira natureza do seu trabalho não tem como foco os clientes, mas sim manipular o sistema financeiro em beneficio próprio e assim sustentar um estilo de vida regado a prostitutas e consumo desenfreado de entorpecentes.  Nesse contexto, Belfort (Leonardo DiCaprio) não demorou muito para montar a sua própria firma de corretagem, ao lado de seu parceiro Donnie (Jonah Hill), e logo colocou em prática seus esquemas a fim de enriquecer cada vez mais ludibriando seus clientes, sem se importar em arruinar a saúde financeira de diversas famílias.

Jordan Belfort sendo awesome

Jordan Belfort sendo awesome

Scorsese não se entrega a uma narrativa objetiva e direta para narrar a jornada de ascensão, queda e redenção dos personagens, mas nos faz penetrar profundamente na mente distorcida pela ambição e desprovida de qualquer senso de moral de seus protagonistas. Ao longo de toda a projeção, o diretor faz uso de uma narrativa em off que potencializa esse passeio pela montanha russa de emoções que é a mente de Jordan Belfort. Usando esse artifício é formado um canal de comunicação direta do personagem com o público e através dele fica claro que o objetivo não é explicar detalhadamente as tramoias da matilha de Belfort – em determinados momentos, o protagonista comenta de maneira bastante ofensiva que a platéia não entenderia – mas sim explorar ao máximo a devassidão e a sede pelo poder.

Essa sede de poder é o principal cerne desse longa-metragem. Sem nenhuma preocupação em ser politicamente correto, Scorsese explora ao máximo os desejos mais doentios do seu personagem. Desde os bacanais enlouquecidos (dignos das festas mais loucas que Caligula dava na Roma Antiga), do consumo desenfreado de alucinógenos ,até a conquista da esposa troféu, tudo gira em torno da ganância e pelo vicio em adquirir mais poder. O texto é visceral ao nos apresentar as motivações do personagem e em nenhum momento tenta justificar suas ações mais hediondas. A critica do diretor reside numa abordagem que tende a priorizar um humor extremamente escrachado para relatar os mais absurdos eventos cotidianos de seus personagens. Scorsese não é o cineasta que vai te dar respostas parcialmente digeridas e vai apresentar uma lição de moral ao fim da projeção.

Sexo, drogas, dinheiro...tudo se resume em poder

Sexo, drogas, dinheiro…tudo se resume em poder

No aspecto técnico o filme é irrepreensível, seja no excelente trabalho de fotografia de Rodrigo Pietro ou no fabuloso trabalho da montadora Thelma Schoonmaker. Vale destacar o ótimo trabalho na seleção das músicas que ajudam a ditar o ritmo e potencializam o tom farsesco adotado pelo diretor.

O roteiro de Terence Winter é recheado de diálogos rápidos, inteligentes e absurdos, com destaque para o momento em que Jordan e Donnie discutem com seus companheiros de trabalho, questões éticas sobre a logística do arremesso de anões no escritório. Vale destacar a excelente escolha de Jonah Hill como Donnie. Além de provar o seu habitual talento e demonstrar um excelente timing cômico com o Leonardo DiCaprio, Hill também consegue compor o personagem de maneira complexa (quem diria que “o gordinho de Superbad” chegaria tão longe). Ele certamente protagoniza um dos momentos mais “vergonha alheia” do cinema moderno. O elenco de apoio conta com performances magníficas de Joanna Lumley, Jean Dujardin, Kyler Chandler e especialmente Matthew McConaughey. Em uma ponta de não mais que 10 minutos, o personagem de McConaughey consegue sintetizar a caricatura do que viria a se tornar o Lobo e nos diverte com sua visão subversiva.

Os 180 minutos de projeção certamente não funcionariam sem a presença de Leonardo DiCaprio na pele de Jordan Belfort. O ator demonstra uma energia fenomenal na composição de seu personagem que começa como um jovem ambicioso e inseguro, mas acaba se tornando um canalha. DiCaprio confere as nuances necessárias ao longo da construção de Belfort que aliadas a sua atuação magnética, tornam esse personagem desprovido de escrúpulos em um ser irresistível. Desde seus discursos apaixonados à seu momentos mais patéticos, fica complicado separar os sentimentos bons e ruins que temos em relação ao personagem, méritos do Leonardo DiCaprio.

Em O Lobo de Wall Street somos convidados a embarcar nessa odisseia recheada de sexo, drogas, dinheiro e cobiça. Scorsese consegue fazer o espectador sair da sala tão pilhado quanto Jordan Belfort fica ao longo das três horas de projeção. Sem abrir mão de suas assinaturas autorais, aos 71 anos Martin Scorsese nos prova que ainda é um dos diretores mais talentosos em atividade.

Renan Sena

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