A Menina que Roubava Livros – Uma adaptação inocente até demais

AVISO: A PESSOA QUE VOS ESCREVE NUNCA LEU A OBRA ORIGINAL, PORTANTO A CRÍTICA SE RESTRINGE A OBRA CINEMATOGRÁFICA.

Já teve a sensação de que você é a única pessoa no Universo que não leu determinado livro? Então, é assim que me sinto com relaçao A Menina que Roubava Livros, best-seller do australiano Markus Zusak. Em momentos em que Hollywood passa por uma enorme crise de criatividade, era questão de tempo para que esse livro tão aclamado logo ganhasse sua adaptação cinematográfica. Coube ao estreante Brian Percival, a complicada missão de transpor para as telas de cinema a emocionante jornada de Liesel Meminger.

O roteiro de Michael Petroni é ambientado na Alemanha nazista, em um contexto de pleno domínio e perseguição aos judeus e comunistas. Após perder seu irmão, a adorável Liesel (Sophie Nélisse) é entregue a uma nova família, uma vez que sua mãe comunista era perseguida pelo regime alemão. Agora sob os cuidados de Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush), a jovem começa a ser educada e desenvolve uma enorme paixão pela leitura, por influência do seu novo pai. Esse amor pelos livros vai crescendo a medida que a guerra avança e ganha todo um novo contexto quando a família da jovem alemã passa abrigar o judeu fugitivo Max (Ben Schnetzer).

O estreante diretor adota um tom mais inocente em relação ao contexto da Segunda Guerra. Sob o olhar de uma criança como protagonista, vivendo dentro de uma comunidade alemã, o texto trata de forma bastante simplista todos os temores que afligiam os alemães em tempos tão nefastos. Observar o conflito sob a ótica dos “nazistas” e acompanhar o medo de ter que servir ou ser identificado pelo exército de Hitler, trás uma perspectiva bastante peculiar a que estamos acostumados.

O foco do diretor é na jornada de Liesel e em suas interações com os mais diversos personagens que  conhece ao longo da projeção. Sua trajetória como “ladra de livros” é descaracterizada, pois a mesma em determinados momentos faz questão de enfatizar que os livros são “emprestados”. Esse elemento em especial deveria ter recebido um foco maior, pois era através dos livros que a menina conhecia novos universos e era transportada para eles, a fim de fugir da dura realidade da guerra.  Sophie Nélisse demonstra um enorme talento e encanta o público com sua interpretação doce e inocente.

Liesel lendo um de seus livros "emprestados"

Liesel lendo um de seus livros “emprestados”

Em determinados momentos essa superficialidade na narrativa deixa evidente que o foco do diretor não é no contexto e sim nos personagens, mas os mesmos poderiam ter recebido mais esmero em sua construção e aprofundamento em suas relações. A montagem picotada e rápida evidencia a ansiedade do diretor em não deixar de fora nenhum momento vital do material original. A própria narração em off da Morte se apresenta quando conveniente, se ausentando em boa parte da projeção. Tal elemento poderia ter sido empregado com mais freqüência a fim de estabelecer a Morte como uma entidade onipresente, causando choque e quebrando um pouco esse tom leve que impera ao longo de toda a projeção, mas ao invés disso, o diretor se poupa para os momentos finais.

A atuação do elenco de apoio é um dos trunfos do longa, conseguindo cativar a audiência com a construção de suas figuras criveis e complexas. Enquanto Geofrey Rush consegue nos conquistar desde os primeiros instantes com sua composição simpática e preocupada de Hans, Emily Watson constrói de maneira complexa a matriarca da família Hubermann. A principio a mãe adotiva de Liesel, demonstra um mau-humor inexplicável a todo instante, mas ao longo do tempo essa carranca vai se desconstruindo e acaba por revelar uma mãe amorosa que faz tudo para se manter forte por sua família. O jovem Nico Liersch, também empolga bastante como o jovem Rudy.

Eu também queria que o Geofrey Rush fosse meu pai adotivo

Eu também queria que o Geofrey Rush fosse meu pai adotivo

O trabalho decente do departamento de direção de arte, figurino e fotografia ajudam a construir com precisão e nos lembra que o filme se passa no período da Segunda Guerra Mundial, o que é fácil se esquecer graças ao tom lúdico do diretor. A trilha sonora de John Willians é um show a parte e prova como esse maestro é um grande manipulador de emoções. Suas composições, aliadas a momentos emocionantes, são capazes de fazer o espectador mais vulnerável se entregar as lágrimas.

A Menina que Roubava Livros pode não ser uma das experiências mais marcantes, mas se mantém bastante fiel a sua proposta desde o inicio. Tendo a consciência que nem tudo que funciona nas páginas de um livro, funcionam em sua transposição para as telas de cinema, a adaptação de Brian Percival certamente vai desagradar fãs mais fervorosos da obra de Zusak e não será capaz de intrigar seus espectadores a correr atrás do material original.

Renan Sena

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