Loucuras em Série: My Mad Fat Diary – Uma Carícia no Ego

        Foi numa madrugada de puro tédio que descobri My Mad Fat Diary, o novo teen drama da E4. Sem nenhum livro para ler ou filme para assistir, me vi tentada a recorrer ao Tumblr como última possibilidade de escapismo. E foi ali que me deparei com diversos posts sobre a série, sobre a qual nunca havia ouvido falar. Parecia bem ao meu gosto: “mimimi” adolescente. Em pouco tempo terminei os seis episódios da primeira e única temporada e me encantei. Com uma estética que me lembrou os seriados da MTV e alguns outros britânicos como Skins e Misfits, My Mad Fat Diary conta a história de Rae Earl, uma menina de dezesseis anos e cento e cinco quilos, após sua saída de um hospital psiquiátrico.

        Não estamos diante de uma série que opte pela tragédia e pelas lágrimas, porém. Tampouco é ela um manual de auto-ajuda para garotas na mesma situação. Ambientada nos anos 90, a série busca a identificação não apenas de adolescentes românticas como eu, mas de balzquianos que já tiveram tempo de descobrir como a vida é, e que sabem que se você pesa mais de cem quilos aos dezesseis anos e mora com uma mãe que possui todos os defeitos do planeta sua vida provavelmente não será perfeita. Rae é pessimista e radical. O tempo todo.

        A história da série gira em torno da tentativa da protagonista de se adaptar a um grupo de pessoas extremamente atraentes e aparentemente bem resolvidas – em que ela é a única que não tem qualquer experiência sexual ou romântica – e que não sabem de sua internação por auto-mutilação. Ela é obrigada a passar por uma série de assustadoras “provações” sociais para se estabelecer no grupo, como quando, logo no primeiro episódio, é convidada para uma festa na piscina e tem de lidar com a humilhação de ficar presa no escorregador, chamando atenção para si mesma, seu peso e para as diversas cicatrizes em suas pernas, decorrentes do recente colapso psicológico.

        O elenco é cheio de beldades, inclusos os interesses românticos de Rae, Archie (Dan Cohen) e Finn (Nico Mirallegro). Está aí a explicação do sucesso da série dentre o público adolescente: rostos bonitos por quem suspirar. Vou admitir aqui, sem nenhum orgulho, que o post que me fez ter vontade de assistir o seriado tinha justamente como foco a beleza inegável dos dois coadjuvantes (Fazer o quê, hormônios da idade). E, de fato, se você procura uma série que acaricie o seu ego de maneira que, após assistí-la, possa acreditar que meninas como Rae podem acabar com caras como Archie ou Finn, para que assim possa suspirar com a possibilidade de um dia desencalhar, My Mad Fat Diary não desaponta. Nada como uma menina nada interessante em um romance com um cara perfeito para dar aquele up na auto-estima, né? Os fãs de Crepúsculo que o digam.

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Finn (Nico Mirallegro) e Rae (Sharon Rooney) sendo fofos.

        Apesar do romantismo levemente apelativo, My Mad Fat Diary é uma comédia tipicamente britânica, daquelas que fazem o espectador não saber se chora de rir ou se muda de posição desconfortavelmente na cadeira. Desde o primeiro minuto da série, Rae descreve-se como “gorda e louca”. E é a partir daí que passamos a vê-la fantasiar de forma bruta e um tanto quanto profana, refletindo lascivamente sobre os meninos que a interessam, um papel que na ficção costuma estar relegado aos personagens masculinos. Talvez seja por isso que a simpática Sharon Rooney, quem lhe dá a vida, me interessou tanto, e sua atuação merece – no mínimo – nossa atenção.

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        Um aspecto interessante de My Mad Fat Diary é o fato de que Rae Earl é literalmente real. Ela existe. O roteiro é baseado no livro My Fat, Mad Teenage Diary, da própria, tomando por pilar uma série de diários que escreveu durante a adolescência. Saber disso me fez ver os acontecimentos no seriado de outra forma, com os olhos de alguém que vê relatos de vida verdadeiros. E foi, de fato, a credibilidade o argumento mais comum dentre os críticos que aclamaram a série. Sam Wollaston, do The Guardian, a chamou de “drama encantador – honesto e doloroso, real e muito engraçado”, continuando a dizer que “o desempenho de Sharon Rooney como protagonista é natural, fácil e totalmente crível, ela deveria ganhar algo por isso.”

        Vale mencionar que cada episódio vem acompanhado de muito grunge na trilha sonora e nos figurinos dos atores. A própria protagonista se considera uma “especialista em música”, e, por conta disso, podemos ouvir no decorrer da série clássicos dos nineties, como Pulp, Oasis, Babylon Zoo e Björk. Nada mal, né?

        Talvez seja o formato de diário que acompanha a voz da protagonista contando suas mágoas e desilusões acompanhado por desenhos irritantes a única queda de uma das poucas histórias de televisão que não retrata a adolescência de maneira frívola ou idealizada, e que trata do tema obesidade de maneira séria e adulta.

        Confira aqui o trailer da segunda temporada, que já está agendada para estrear esse mês:

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Um comentário sobre “Loucuras em Série: My Mad Fat Diary – Uma Carícia no Ego

  1. Acredito que você esteja um tanto quanto equivocada, mas claro essa é sua opinião e eu vou respeitar. Mas você em alguns momentos se contradiz demais, comparando a série com Crepúsculo e depois chamando de sensível.
    Você diz no começo que “ela é obrigada a passar por uma série de assustadoras “provações” sociais para se estabelecer no grupo” e logo em baixo diz que “de fato, se você procura uma série que acaricie o seu ego de maneira que, após assistí-la, possa acreditar que meninas como Rae podem acabar com caras como Archie ou Finn, para que assim possa suspirar com a possibilidade de um dia desencalhar, My Mad Fat Diary não desaponta”. Sua primeira afirmação conta o que realmente a série está focando, porém na segunda você parece dizer que a série só está ali para ser boba e fútil, mas como você mesma sabe a série é real, baseada no livro da Rachel Earl – que,by the way, trabalha em conjunto com os escritores da série – e contraditoriamente (novamente) você no final diz que a série é “uma das poucas histórias de televisão que não retrata a adolescência de maneira frívola ou idealizada”.
    My Mad Fat Diary fala de situações que garotas como a Rae passam quase todos os dias. Mostra de forma clara como pequenas pressões sociais podem nos afetar seriamente, e quando não confiamos nem em nós mesmos o quanto é difícil confiar nas outras pessoas. Mostra também o quão humano todo mundo é, apesar de erros e acertos nem todos são sempre otimistas e conseguem ver a vida pelos olhos dos outros. E acima de tudo mostra o quão difícil é ser um adolescente.
    A história dela se passa nos anos 90 mas poderia se passar hoje em dia, onde a ditadura da beleza é tão opressora que crianças de 12 anos estão mais preocupadas em fazer dieta do que em aproveitar a infância.
    O formato da série com narrações do diário pode não agradar você, mas está ali para transmitir algo verdadeiro, crível e faça com que o telespectador se conecte com o personagem em um nível mais que emocional, afinal nós que estamos vendo estamos dentro da cabeça da Rae.
    E finalizando, acho que você mostrou tudo de forma muito superficial, ao invés de falar de modo imparcial como a maioria dos críticos fazem. Afinal, se você quem está escrevendo é a sua opinião.

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