A Trapaça – Elenco fabuloso, mas hype excessivo

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem uma enorme tendência a esnobar alguns profissionais e eleger outros como seus queridinhos. Enquanto Leonardo Di Caprio e Christopher Nolan sofrem com a indiferença dos membros da Academia, o cineasta David O. Russel goza de enorme prestigio com a organização mais importante da indústria. Seus últimos trabalhos (O Vencedor e O Lado Bom da Vida) saíram consagrados com diversos prêmios nas duas últimas edições do Oscar, então devido a todo esse hype, criou-se uma expectativa enorme sobre A Trapaça, o recordista de indicações (10) dessa edição dos Academy Awards.

Escrito por Eric Warren Singer em parceria com o próprio diretor, o filme baseado parcialmente em uma história real (um letreiro irônico nos avisa nos primeiros segundos de projeção), acompanha uma investigação do FBI em 1978, quando o ambicioso detetive Richie DiMaso (Bradley Cooper) passa a chantagear o trapaceiro Irving Rosenfield (Christian Bale) e sua parceira Edith Greensly (Amy Adams) para que eles o ajudem em uma operação para prender criminosos do colarinho branco e mafiosos. Usando como isca o bem intencionado prefeito de Nova Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner), Irving passa a ter dúvidas e as coisas se complicam ainda mais quando sua verdadeira esposa, Rosalyn Rosenfeld (Jennifer Lawrence), se envolve em determinado momento.

A força de "A trapaça" está no fabuloso elenco

A força de “A trapaça” está no fabuloso elenco

David O. Russel é bem sucedido ao desenvolver um longo com bons momentos, reviravoltas e revelações impactantes sobre a origem de seus complexos personagens, mas esbarra na morosidade com a qual o diretor conduz a narrativa. Usando  narrações em off, acompanhamos o filme a partir da perspectiva do casal de trapaceiros, tal recurso é interessante,  mas acaba mantendo o longa na mesma cadência, não permitindo que se crie uma atmosfera de tensão nem nos momentos mais cruciais dos golpes – salvo o encontro com o mafioso Victor Tellegio (Robert De Niro em participação não creditada). Além disso, o texto não abre muito espaço para que os espectadores tirem suas próprias conclusões e atinge um alto grau de exposição, principalmente no terceiro ato.

Como todos sabem, David O. Russel se destaca pela sua fantástica maneira com a qual ele conduz o seu elenco e nesse filme isso não é diferente. A começar pelo falsário Irving, interpretado de forma magnífica pelo talentoso Christian Bale. Mostrando mais uma vez grande dedicação na composição de um personagem (o ator ganhou 19 kg para o papel), o grande trunfo está nas nuances que Bale confere a Irving. Sem jamais se entregar a caricatura, Bale confere uma enorme tridimensionalidade ao personagem, que aos poucos vai desconstruindo essa faceta de homem inteligente e inescrupuloso, se mostrando cada vez mais vulnerável ao longo da projeção. Sua primeira interação com Jennifer Lawrence é um dos melhores momentos da fita.

Christian Bale não se importa em se sacrificar fisicamente para um papel

Christian Bale não se importa em se sacrificar fisicamente para um papel

Jennifer Lawrence, por sinal, está on fire como Rosalyn Rosenfeld. Interpretando uma dona de casa frustrada em um casamento fadado a terminar em divórcio, a atriz confere rapidez nos diálogos e nos diverte com a personalidade extremamente surtada que confere para a personagem. Mas o destaque feminino do elenco é Amy Adams, interpretando a enigmática Edith/Sydney. Torna-se quase impossível saber o que se passa em sua cabeça, graças à maestria com que a atriz equilibra fragilidade e inteligência na composição de sua personagem. Sempre em conflito entre o amor e o ressentimento, Sydney é complexa e instável, o que a torna perigosa.

Outro destaque vai para Bradley Cooper que interpreta um ambicioso agente federal. Igualmente complexo, o personagem demonstra uma enorme vontade de crescer cada vez mais na hierarquia do FBI. Preso a um noivado e a uma vida pessoal frustrante, Richie usa o trabalho como válvula de escape e não hesita em colocar suas ambições a frente de tudo. Suas interações com seu superior, interpretado pelo comediante Louis C.K, são divertidíssimas (ainda estou me perguntando qual é a moral da história da pescaria no gelo) .

Os dois trapaceiros mais awesomes do mundo

Os dois trapaceiros mais awesomes do mundo

Com um excelente designer de produção, a reconstrução dos anos 70 se mostra presente na composição dos figurinos e dos constrangedores penteados do fim da década. A trilha sonora é fantástica e conta com faixas que vão de Led Zeppelin, Elton John, Ella Fitzgerald a Duke Ellington.

 A Trapaça se destaca mesmo pela atuação poderosa do seu elenco talentoso, conseguindo ser indicado para as quatro categorias de atuação, isso não acontece desde 1981. Mas apesar disso tudo o hype que se criou não se justifica. David O. Russel consegue criar uma boa trama com todos os seus conflitos, mas esbarra em problemas sérios que a tornam desinteressante.

Renan Sena

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