Ela – O amor ultrapassando a barreira da artificialidade

Somos  criaturas com uma enorme necessidade de se relacionar. Antes do inicio da era digital, as relações sociais ocorriam de maneira mais próxima, mas com os avanços tecnológicos e a criação das redes sociais, barreiras foram quebradas unindo cada vez mais as pessoas. Paradoxalmente, estamos cada vez mais juntos, mas não estamos próximos, pois nossas relações interpessoais ganharam muito em quantidade, mas perderam ainda mais em qualidade. Ainda assim, permanecemos com nossas necessidades óbvias de oferecer e receber em troca qualquer tipo de afeto. É nesse universo repleto de artificialidade e impessoalidade que Spike Jonze desenvolve Ela.

Roteirizado pelo próprio Jonze, o longa se situa em Los Angeles, num futuro não muito distante e narra à melancólica vida de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor que trabalha em uma empresa que se dedica a escrever cartas por encomenda. O solitário escritos vive um momento de crise após o término de seu longo casamento, então para driblar a solidão, ele decidi adquirir um software, que é basicamente uma inteligência artificial que se desenvolve de maneira a interagir com o usuário de forma a atender cada vez melhor suas necessidades. Mas para surpresa de Theodore, essa inteligência artificial, auto-batizada Samantha (voz de Scarlett Johansson), acaba preenchendo uma lacuna na sua vida, que as outras pessoas no mundo real não conseguiam, então ele acaba se envolvendo cada vez mais e ela parece corresponder a seus sentimentos.

Theodore e Samantha em um momento de intimidade

Theodore e Samantha em um momento de intimidade

O longa se desenvolve num cenário futurista, mas as situações que se constroem são monstruosamente familiares. Mesmo conectados a um universo cujas relações são cultivadas de maneira artificial, não importa a plataforma utilizada para suprir nossa necessidade de amar. Mesmo interagindo de forma impessoal, seja através de Facebook, Whatsapp ou SMS, muitas vezes acabamos nos apaixonando pela ideia que construímos a partir de nossas percepções e interpretações sob determinada pessoa. Mas os efeitos que esses sentimentos causam não deixam de ser menos dolorosos ou reais. É partindo dessa premissa básica que o cineasta aborda o relacionamento de Theodore e Samantha de maneira sutil, como realmente só ele seria capaz.

De forma sensível, Jonze constrói seu protagonista não como um ser anti-social, mas como um personagem bastante agradável, porém vulnerável. Joaquin Phoenix atua boa parte do filme sozinho, o que exige muito de suas habilidades de interpretação para nos convencer de que está acompanhado de sua namorada virtual o tempo inteiro. O ator esbanja talento e mistura melancolia e esperança na composição do seu personagem. Sua química com a voz de Scarlett Johansson é essencial para que os espectadores acreditem nesse incomum relacionamento.

Theodore forever alone

Theodore forever alone

O trabalho de voz de Scarlett Johansson, por sinal, é o motor da narrativa. Capaz de evocar os mais diversos sentimentos, ela se torna algo real sem ter que aparecer fisicamente uma vez seque. Se desenvolvendo de maneira constante, ela adquire traços comportamentais humanos, o que é essencial para criar um laço de empatia com o publico e adicionar ainda mais autenticidade nos sentimentos do casal. Apesar de sua enorme importância para o desenvolvimento do longa, a elegibilidade da atriz para as principais premiações foi negada (essa política deve ser revista, por favor).

A trilha sonora de Will Butler e Owen Pallett, membros da banda Arcade Fire, é responsável por adicionar doses cavalares de melancolia ao filme. Acompanhando o desenvolvimento psicológico do personagem, os acordes da dupla são essenciais para construir a atmosfera ideal. O designer de produção é fantástico na concepção de seus ambientes, que primam pelo uso da tecnologia de maneira funcional e sutil. Aliados aos figurinos que parecem ter saído de um catalogo vintage da Lacoste, essa Los Angeles do futuro parece ser de um universo onde os hipster dominaram o mundo.

Qualquer pessoa que já amou um dia, ou deseja profundamente ser amado, vai se reconhecer como Theodore. A identificação com essa temática tão universal é algo muito natural. Ela é uma brilhante investigação da condição humana e da nossa necessidade latente de se manter conectado a alguém, independente da plataforma utilizada. De maneira sensível, Jonze aborda todas as nuances de um relacionamento. Não faz diferença  se sua paixão é algo intangível, se as reações provocadas por esse sentimento são reais, é tudo o que importa.

Renan Sena

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