12 Anos de Escravidão – Um tapa na cara da sociedade

Um movimento bastante interessante vem ocorrendo na indústria cinematográfica, desde que Obama assumiu o poder nos Estados Unidos.  Filmes como Django Livre, Lincoln e O Mordomo da Casa Branca nos mostraram um pouco da sofrida jornada dos negros americanos na luta para conquistar sua liberdade e seus direitos civis, direitos esses considerados essenciais e que não deveriam ser negados a nenhum ser humano. Ao contrário da fantasia de vingança de Quentin Tarantino, da benevolência de Steven Spilberg ou do espírito conciliador de Lee Daniels, Steve MCQueen não se dá ao trabalho de oferecer um falso conforto em 12 Anos de Escravidão.

O roteiro visceral de John Ridley narra à trajetória de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um cidadão nascido livre em Nova York. Respeitado na comunidade, Solomon é um homem culto e amante de música. Certo dia, ele é enganado por dois homens brancos que o sequestram e o enviam para o sul dos Estados Unidos, região onde o regime escravagista ainda imperava. Agora rebatizado como Platt, acompanhamos a angustiante jornada de servidão de um homem que ao longo de 12 anos passa de um “mestre” para outro e encontra seus piores dias nas mãos de Edwin Epps (Michael Fassbender).

O roteiro de Ridley é visceral e demonstra sem nenhum pudor todos os horrores que os negros eram submetidos nesse tenebroso período da humanidade. Tratados como simples mercadorias e como seres inferiores aos brancos, os escravos eram obrigados a servir em atividades campestres, ouvindo a todo instante o estalo de chicotes ressoando como ameaça. Steve McQueen não suaviza o discurso em momento nenhum e através de uma abordagem agressiva mete o dedo na ferida, nos dando uma amostra da exploração dos nossos antepassados caucasianos que não se importavam em separar famílias, se a finalidade disso os beneficiasse de alguma forma.

Sádico Epps inferniza a vida de Solomon

Sádico Epps inferniza a vida de Solomon

McQueen adota uma narrativa dinâmica, acompanhando os efeitos psicológicos que os anos de subserviência causam em Solomon. Pontuando a passagem do tempo através do desgaste mental e da degradação física a qual o protagonista é submetido devido aos anos de servidão, o longa se mantém num ritmo forte, graças a um excelente trabalho de montagem. Através de “mestres” de perfis diferentes o diretor consegue ilustrar as mais diversas facetas da América escravagista.

Com o Ford, interpretado por Benedict Cumberbatch, o diretor nos mostra a falsa benevolência de alguns senhores, que mesmo demonstrando pequenos sinais de compaixão e tratando seus escravos com um pouco de dignidade, não hesitavam em manter sua coleção de negros como propriedade. Enquanto isso, Edwin Epps, interpretado de forma sádica por Michael Fassebender, expõe o horror que era perpetuado pelos escravagistas que acreditavam que cumpriam apenas a vontade de Deus. Através da relação de Epps com Solomon que o diretor evidencia de forma crua a violência empregada. McQueen usa planos sequência – uma de suas assinaturas estilísticas – para mostrar um brutal açoitamento (que dura 5 minutos) e em uma angustiante cena em que o protagonista luta pela vida enquanto está pendurado pelo pescoço.

Benedict Cumberbatch parece ser legal...mas tem uma porrada de escravos

Benedict Cumberbatch parece ser legal…mas tem uma porrada de escravos

O longa é recheado de personagem detestáveis com destaque para o capataz interpretado pelo Paul Dano (é impressionante com ele tem facilidade para esse tipo de papel); a esposa arredia de Epps interpretada de forma brilhante pela atriz atriz Sarah Paulson; e o negociante de escravos vivido por Paul Giamatti. Todos esses personagens ilustram de forma fantástica os diversos aspectos desse terrível período.

É pelo medo dessas pessoas horríveis,que Solomon se vê obrigado a ocultar a sua erudição, pois o simples fato de descobrirem que ele era alfabetizado poderia colocar a sua vida em risco. Chiwetel Ejiofor faz um trabalho fantástico na composição do protagonista que tenta ao máximo manter sua dignidade em meio a todas as injustiças sofridas. Solomon é um personagem que cultiva a crença que a justiça eventualmente será feita e é isso que o faz seguir em frente. Brad Pitt – também produtor do longa – em uma ponta crucial, aparece como um abolicionista canadense que oferece a Solomon um sopro de esperança.

Solomon era um homem culto e respeitado antes de sofrer por 12 anos

Solomon era um homem culto e respeitado antes de sofrer por 12 anos

O diretor também explora os efeitos devastadores e da rotina de crueldade que as escravas sofriam. A estreante Lupita Nyong’o é a responsável por ilustrar a jornada de sofrimento de uma personagem que se via obrigada a se submeter ao afeto excessivo de seu mestre para poder sobreviver. Apesar de ser sua estréia, a jovem atriz demonstra uma enorme desenvoltura em sua performance sofrida.

Tecnicamente o filme é irrepreensível e conta com uma bela fotografia que aproveita ao máximo as belas paisagens, brincando com os tons frios e quentes para construir a atmosfera. Mas é a trilha sonora do mestre Hans Zimmer a responsável por embalar de forma melancólica a triste jornada de sofrimento dos negros. Apesar de não ser o trabalho mais criativo do maestro – reparem a semelhança entre “Solomon” e “Time” (faixa da trilha de “A Origem”) – seus acordes são essenciais e favorecem bastante o desenvolvimento da narrativa.

Pela sua crueza, 12 Anos de Escravidão pode ser considerado um dos dramas mais corajosos sobre o tema, por retratar de forma visceral um dos períodos mais tenebrosos da humanidade. A escravidão nos deixou um triste legado e por mais que se diga que vivemos em uma sociedade “igualitária”, de maneira sutil ainda exercemos nossos preconceitos e intolerâncias de forma inconsciente. Steve McQueen nos faz confrontar os horrores causados por tais atos, na esperança que um dia possamos perceber que não existe diferença entre negro, branco, asiático ou pardo…somos todos seres humanos.

Renan Sena

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Um comentário sobre “12 Anos de Escravidão – Um tapa na cara da sociedade

  1. As críticas estão ficando cada vez melhores, Moço. Parabéns, está genial!!

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