Philomena – Muito mais do que uma história de “interesse humano”

Aos 79 anos de idade, Dame Judi Dench é considerada um tesouro nacional britânico (apesar de odiar esse titulo). A experiente atriz vem lutando com sérios problemas de saúde nos últimos anos, incluindo uma cirurgia no joelho em 2013, e problemas de visão que vem tornando cada vez mais difícil para ela ler os roteiros. Mas engana-se quem pensa que a atriz está perto de se aposentar ou em decadência. Sua magnífica performance em Philomena, longa dirigido por Stephen Frears, é um “cala a boca todo mundo!”.

Co-escrito e co-protagonizado por Steven Coogan, o texto adapta o livro The Lost Child of Philomena Lee, que conta parte da vida de Philomena, uma senhora de quase 70 anos de idade que após guardar segredo por muito tempo, decide contar a sua filha que ela tem um irmão, que foi tirado de seus cuidados e adotado por uma família desconhecida. Eis que o destino coloca no caminho das duas, o jornalista Martin Sixsmith, que passando por um período conturbado em sua carreira, procura uma boa história de interesse humano para escrever e tentar colocar sua carreira de volta nos eixos. Não muito entusiasmado, o jornalista decide acompanhá-la nessa empreitada e os dois partem em uma viagem cheia de revelações.

Nas mãos de qualquer outro realizador, o longa poderia se entregar ao clichê e ser  mais um filme daqueles concebidos apenas para fazer a platéia chorar. Mas Stephen Frears procura abordar o encontro dos dois protagonistas de maneira discreta e natural, sem apelar para nenhum tipo de sentimentalismo barato e deixando que a história emocione o espectador pela sua universalidade.

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 A abordagem de Frears é bem sucedida graças a acidez e aos momentos divertidos do texto de Steven Coogan, que constrói a relação de Philomena e Martin de maneira engraçada, principalmente pela forma de pensamento antagônica dos dois. Seu desdém pelo gosto de Philomena por romances literários e pela forma doce com que ela trata as pessoas, cria situações divertidas. Mas engana-se quem pensa que ela é uma senhora inocente, alheia a essas atitudes de seu companheiro. É essa relação construída com um bom humor inesperado e a dependência mútua entre os dois, que move a narrativa.

Steve Coogan, mais conhecido por seus papéis cômicos – seu maior papel de destaque nos EUA foi como a miniatura Octavius  em Uma Noite no Museu – surpreende por entregar um excelente desempenho dramático, mas sem deixar de lado seu humor ácido característico. Acompanhamos a desconstrução sutil de seu personagem, que passa a encarar o mundo de maneira mais sensível, a medida que sua jornada se desenvolve. Coogan consegue representar de maneira brilhante a maneira que seu personagem entende reverencia, e mais importante ainda, respeita o que essa busca representa para Philomena.

Enquanto Sixtmith é um ateu convicto, que não nega a sua formação jornalística, reagindo sempre de maneira contestadora e com seu cinismo característico; Philomena ainda preserva sua fé inabalável, mesmo depois todos os desgostos que sofreu após ser confinada pelos pais em um convento católico após a “vergonha” de sua gravidez. A irritação de Sixmith com a resignação da protagonista, mesmo em frente a revelações tão revoltantes, reflete um pouco o sentimento do espectador. Mas assim como o personagem, passamos a compreender a fé e a visão de mundo dessa sofrida irlandesa, que mesmo guardando para si uma dor indescritível durante 50 anos, consegue achar uma brecha para sorrir.

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 Rasgar elogios para Judi Dench é desnecessário, pois todos conhecem o talento dessa veterana. Porém seu desempenho como Philomena Lee é marcante pela maneira verossímil que ela interpreta essa senhora incrível que mesmo não podendo ver seu filho crescer, deseja descobrir se ao longo desse tempo ele ao menos pensava nela. Ao longo dessa jornada somos agraciados como uma das performances mais tocantes e fantásticas da carreira de Dench.

O longa faz algumas denúncias sérias, mas sem nunca perder sua leveza. Philomena tem como tema central a religiosidade, mas graças a sutileza de Coogan e Frears o tema é desenvolvido sem ser necessário martelar essa ideia na cabeça do espectador a cada minuto.No inicio do filme, Martin estava escrevendo uma história de “interesse humano”, mas a medida que sua jornada progride, percebemos que essa é história é algo muito, muito maior do que isso.

Renan Sena

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