O Clube de Compras de Dallas – A consagração de Matthew McConaughey e Jared Leto

A filmografia de Matthew McConaughey certamente não é uma das mais incríveis da indústria. McConaughey que parecia estar fadado a exibir seus músculos, bronzeado e sorriso sedutor, quase que exclusivamente em comédias românticas rasas, surpreendeu a todos com seu desempenho em seus últimos projetos. Após despertar a atenção da mídia especializada, interpretando um matador de aluguel em Killer Joe e um dono de um bar de striptease em Magic Mike – papel que lhe rendeu um Independent Spirit Award de melhor ator coadjuvante – o ator é um dos favoritos para receber a consagração máxima da Academia por sua performance em O Clube de Compras de Dallas.

Roteirizado por Craig Borten e Melisa Wallack, o longa é baseado na vida de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um eletricista texano que após ser diagnosticado como portador do vírus HIV, recebe o terrível prognóstico de que teria apenas mais 30 dias de vida. Surpreso, por acreditar se tratar de uma doença que afligia exclusivamente homossexuais, Ron aos poucos vai aceitando sua condição e busca se informar ao máximo sobre meios alternativos para combater sua doença, já que os experimentos com a droga AZT que ocorriam em sua cidade eram limitados pelo hospital local. Com a ajuda do travesti Rayon (Jared Leto), Ron passa a importar grandes lotes desses remédios alternativos e monta um Clube de fidelidade, em que os membros pagam uma taxa mensal de US$400 para receber esses remédios, que posteriormente se tornariam a base para o coquetel de medicamentos usado para fortalecer o sistema imunológico dos pacientes soropositivos.

Junte-se ao Clube

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O diretor canadense Jean-Marc Vallée promove um fantástico estudo de personagem com a desconstrução gradual desse white trash texano, que inicialmente se apresenta como um homofóbico, racista, grosseiro, ultraconservador e viciado em drogas – personagem típico do sul dos EUA. A principio é quase impossível acreditar que o espectador se apiede do protagonista de alguma forma, mas é na abordagem inteligente de Vallée e na atuação magnética de McConaughey que o longa encontra a sua maior força. É só quando o personagem passa a sofrer na pele os preconceitos que costumava nutrir, que começa a ter a determinação para pesquisar o máximo que pode sobre a síndrome que o acomete e se mostra receptivo ao convívio com Rayon, construindo aos poucos uma bela amizade. O que torna essa jornada de redenção tão fantástica é que ela ocorre de forma orgânica e verossímil, visto que Ron mantém vestígios de sua antiga intolerância e não esconde suas motivações financeiras ao montar o Clube.

A entrega de Matthew McConaughey é algo notável. O ator, que perdeu mais de 20 kg, aparece em cena com uma aparência cadavérica que confere um assustador grau de realismo ao demonstrar sinais de devastação física causadas pela AIDS. Com seu pesado sotaque texano aliado a um excelente trabalho de expressão corporal, McConaughey é brilhante na composição de seu personagem, conseguindo nos cativar ainda que mantenha traços de caráter desprezíveis. Através de sua química com Jared Leto, se constrói uma inesperada amizade, indiretamente responsável por suavizar o personagem aos poucos.

O ator/músico Jared Leto já tinha mostrado em trabalhos anteriores que não se importa em ganhar ou perder peso para interpretar um personagem. Sua dedicação não é nenhuma novidade, mas dessa vez a atuação de Leto beira a perfeição. Rayon é um personagem complexo e que consegue manter o bom humor mesmo tendo em vista as perspectivas mais desanimadoras. As interações entre Rayon e Ron criam alívios cômicos pontuais e desenvolve uma bela relação de respeito entre os dois.

Jared Leto é o favorito para ganhar o Oscar de ator coadjuvante por sua performance

Jared Leto é o favorito para ganhar o Oscar de ator coadjuvante por sua performance

Tecnicamente o filme é bem sucedido por adotar uma montagem dinâmica, mostrando a passagem de tempo na tela, mas sem deixar o longa com um ritmo episódico ou algo do gênero. O designer de produção é bem sucedido em sua reconstrução da época e aliado a um sóbrio trabalho de figurino e maquiagem, a década de 80 é recriada com toda a sua excentricidade característica, mas sem exageros. Vale destacar o desenho de som fantástico, que se evidencia logo nos primeiros minutos da fita, evocando toda a selvageria e falta de pudores do protagonista em uma relação sexual e também ao incluir um incômodo zumbido, ilustrando os angustiantes momentos que precediam uma das recorrentes crises de saúde de Ron.

Promovendo um excelente estudo de personagem e um retrato visceral das agruras sofridas pelos portadores da AIDS na época da propagação da doença. Jean-Marc Vallée é duro em sua denúncia sobre o lobby da indústria farmacêutica e de como eles atuavam de maneira a se aproveitar do desespero de pacientes a beira da morte, apenas visando o lucro. Corajoso em suas denuncias e poderoso na construção de seus arcos dramáticos, O Clube de Compras de Dallas encontra sua força em duas atuações fantásticas, de dois atores que só agora tiveram a oportunidade de mostrar o seu valor.

Renan Sena

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