Era uma vez… em “Todo dia”

Todo dia

Você acorda de manhã e não sabe onde está. Desde que você se lembra tem sido assim: acorda num corpo diferente, numa vida diferente. Sem pais, sem família, sem saber como nasceu. Todo dia.

A vida de A, como o personagem se auto denomina, é assim. Ele/ela passou por isso durante 16 e já está costumado. Não sabe se vai começar o dia no corpo de um drogado, diabético, órfão, popular do colégio, etc. Quando acorda, a primeira coisa que tem que descobrir é quem a pessoa é. Depois, se esforça para viver do jeito mais normal possível na vida das pessoas em que “possui” (não gosto muito de usar esse termo, porque o que acontece com A é uma coisa involuntária, ele não sabe controlar, mas vamos lá), indo pra escola, acessando as lembranças do corpo para saber como a pessoa reagiria, etc. Tenta não interferir o máximo possível.

Até que um dia, quando acorda no corpo de Justin, A conhece uma garota e a vida ganha um significado.

Essa garota é Rhiannon. A se apaixona por ela de uma maneira que parece até meio obsessiva as vezes. A começa a rever a maneira que vive e começa a mudar em algumas coisas. Depois, Rhiannon  e A tentam viver um romance, mas é complicado, primeiro porque ela namora Justin, que é um cara muito mala, e segundo pelo fato da vida de A ser como é.

"Queria que o amor conquistasse tudo. Mas o amor não conquista tudo. Ele não pode fazer nada sozinho. Ele depende de nós para conquistar em seu nome."

“Queria que o amor conquistasse tudo. Mas o amor não conquista tudo. Ele não pode fazer nada sozinho. Ele depende de nós para conquistar em seu nome.”

Em certo ponto do livro, A começa a ter a chance de descobrir mais sobre esse poder (????) que tem. O que dá a entender é que ele vai atrás das informações, pra ver se consegue resolver, se aprende a dominar pra que assim consiga se manter num corpo por mais tempo. O autor chega a plantar essa sementinha no livro, pra que possa evoluir pro final, mas o problema é que ele não desenvolve a idéia. Ele nos enche de esperança de que A vai descobrir como controlar pra que consiga o que quer, que essa busca pela resposta seria uma aventura interessante, mas no fim das contas, acontece tudo muito rápido e esse plot pareceu solto demais. Talvez o autor tenha optado por escrever assim pois a busca não era o objetivo central do livro, que na minha opinião são as questões que A nos abre.

David Levithan, o autor do livro :)

David Levithan, o autor do livro 🙂

Adorei a forma que David Levithan – que já cooperou com John Green e Rachel Cohn – escreveu o livro. “Todo dia” é um livro intenso, complicado e leve, que nos faz rever nossos conceitos sobre preconceitos e rótulos, sobre beleza exterior e interior, e principalmente, sobre quem nós somos como pessoas. O livro também é repleto de trechos memoráveis.

O livro levanta outras questões reflexivas: como a vida seria se você não tivesse um corpo e uma vida? Se não tivesse pais, se não tivesse uma história (e nem a oportunidade de criá-las), apenas aquelas do corpo que está habitando?

Porém, fica a questão principal: você conseguiria amar alguém que está mudando todo dia? Imagine que você não sabe como esse alguém iria aparecer pra você hoje. Não sabe seu gênero sexual, se é branco, negro, oriental, latino. O amor conseguiria vencer esse obstáculo tão grande?

 

 

Carolina Faria

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s