Godzilla – Vida longa ao Rei dos Monstros

Se você acredita que Godzilla (1999) do Roland Emmerich é um bom filme, por favor, saia do meu blog e nunca mais olhe na minha cara. Sacanagem, gosto é que nem bunda, cada um tem a sua, mas é de conhecimento geral que toda uma geração cresceu sem saber da importância dos filmes clássicos do Gojira, graças a aquela lagartixa mutante do Emmerich. A fim de resgatar a majestade de outrora do Rei dos Monstros, a trinca Legendary/Warner/Toho decide contratar Gareth Edwards, diretor do fantástico Monstros, para essa empreitada.

Desenvolvendo o argumento de Dave Callaham, o roteiro do quase iniciante Max Borenstein desenvolve uma atmosfera conspiratória onde a existência de criaturas gigantes, os MUTOs, é encoberta pelos militares e pela misteriosa corporação Monarch, liderada pelo cientista Ichiro Serizawa (Ken Watanabe). O cientista Joe Brody (Bryan Cranston) acaba obcecado em tentar descobrir o motivo do acidente que acabou vitimando sua esposa (Juliette Binoche) e acaba chegando bem perto da verdade. Quando as mentiras não podem mais ser acobertadas e os ataques acabam se intensificando, o filho do cientista, o tenente Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson) acaba no meio de todo o caos e se vê desesperado tentando voltar pra casa, junto de seu filho e sua esposa (Elizabeth Olsen).

Edwards acaba investindo cerca de dois terços da narrativa no desenvolvimento de personagens característicos do gênero e de toda trama de conspirações, até dar atenção ao personagem titulo. Tal decisão se mostra acertada, pois o diretor não se entrega à pura catástrofe vazia, criando um tom de desesperança e todo um senso de gravidade com relação à existência desses seres colossais que ignoram completamente a existência dos seres humanos. Esse artifício de contar a história sob um ponto de vista humano é sintetizado na forma que o diretor posiciona sua câmera no chão, observando as criaturas com deslumbramento. Por mais que a idéia seja boa, seu potencial não é muito bem explorado, devido a falta de foco do texto que abandona alguns bons personagens graças a essa produção inchada.

All hail the king

All hail the king

Enquanto Bryan Cranston não se entrega ao clichê de cientista obcecado, sem pecar nos excessos e trazendo um forte peso dramático na composição do personagem; Ken Watanabe constrói o Dr. Ichiro como uma figura forte e racional em meio ao eminente apocalipse que promete trazer a humanidade de volta para a Idade da Pedra (tentem se conter no momento em que ele fala “GOJIRA!”). Os dois personagens são responsáveis pela maior parte dos diálogos científicos e poderiam facilmente centrar o drama humano do longa, mas por algum motivo bizarro, ambos tem participação resumida e são deixados de lado.

Aaron Taylor-Johnson não se mostra a altura dos dois veteranos e aqui se perde em um herói vazio e sem personalidade. O ator que ganhou destaque em Kick Ass, surpreendentemente não mostra um pingo de carisma sequer, o que acaba prejudicando e muito com que se crie um envolvimento emocional com seu personagem, o que por definição tira um pouco do peso dramático que o diretor pretendia. Aliás, o roteiro acaba subaproveitando atores com talento inquestionável como Sally Hawhkins, David Strathairn e Elizabeth Olsen. Essa ultima tem um arco dramático terrivelmente mal desenvolvido e participação resumida a momentos de corrida na chuva.

GOJIRA!

GOJIRA!

São necessários dois atos para que finalmente possamos de fato ter um vislumbre do Godzilla. É o tempo que Edwards precisa para contextualizar a existência dessas criaturas gigantescas e ancestrais. Fazendo paralelos com o desastre nuclear de Fukushima, o longa trabalha o mesmo conceito anti-nuclear do filme de Ishiro Honda. O diretor revela a criatura aos poucos, aumentando de forma gradual a expectativa do público para o clímax (ou não). De maneira angustiante o diretor vai postergando a participação do monstro, abusando dos cortes no meio dos conflitos entre as criaturas, em uma ocasião acaba até fechando a porta na cara dos espectadores (você vai sentir um leve impulso de gritar “filho da puta!”). Isso eleva a ansiedade do espectador a níveis perigosos, mas a espera é recompensada num excitante terceiro ato.

Com um trabalho impecável da equipe de efeitos especiais na criação da criatura, mantendo características essenciais dos clássicos e impressionando pela gama de detalhes. Os momentos do confronto são fenomenais e o filme assume um ritmo interessante. Ver o Godzilla usando seus golpes clássicos acaba gerando momentos catárticos. Seria tudo mais legal se o 3D agregasse em alguma coisa na narrativa, mas o mesmo acaba por escurecer e prejudicar a maioria das cenas de ação que se desenrolam a noite.

Destruição e caos

Destruição e caos

Embalado pela excelente trilha de Alexander Desplat, que vive uma excelente fase, Godzilla trás de volta ao Rei dos Monstros um pouco da sua majestade. Por mais que o mesmo não assuma o óbvio posto de protagonista, é sempre divertido ver monstros gigantescos no cinema. Espero que esse encantamento de Hollywood com  kaijus dure por muito tempo.

 

Obs.: Se você assistir o filme na Ásia fique até o fim dos créditos.

Renan Sena

 

 

 

 

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