Malévola – A história não contada

A onda de releituras de contos de fadas está tão forte quanto adaptações de histórias em quadrinho. Todos os elementos para o sucesso estão à disposição dos realizadores, restando apenas a repaginada necessária para justificar a adaptação do conto clássico. Dessas novas versões dos contos de fadas, alguns flertaram com um tom mais dark, gerando resultados bastante controversos. É nessa vibe mais sombria e mostrando o ponto de vista de uma das vilãs mais icônicas da Disney, que Robert Stromberg nos trás Malévola.

O texto escrito pela veterana Linda Woolverton é uma adaptação livre do conto dos irmãos Grimm e do clássico longa-animado de 1952, lançado por Walt Disney. Somos apresentados a Malévola (Angelina Jolie) ainda em sua infância, como protetora do reino encantado de Moors, onde ela acaba conhecendo o jovem e ambicioso Stefan (Sharlto Copley). Os dois jovens acabam se apaixonando, mas o tempo passa e a cobiça leva o humano a cometer um terrível ato de traição para se tornar rei. O tempo passa e Malévola abraça a escuridão e uma enorme sede de vingança, o que a motiva a amaldiçoar Aurora (Elle Fanning) a cair em um sono profundo ao furar seu dedo em uma roca de fiar, no dia de seu aniversário de 16 anos e o único antídoto para tal maldição seria um beijo de amor verdadeiro. Paranóico o rei envia a jovem precisa para viver na floresta sob os cuidados de três atrapalhadas fadas (Imelda Stuntos, Juno Temple e Lesley Manville), mas Malévola insiste em acompanhar de perto o crescimento da jovem.

A principio é necessário que se tenha em mente que o longa tem como objetivo oferecer voz a vilã, então é de se esperar que essas mudanças radicais relacionadas ao ponto de vista narrativo gerem algumas incongruências com o clássico conto da Bela Adormecida. É absurdamente complicado agradar xiitas e o novo público, mas ainda assim o texto de Woolverton consegue se relacionar com o clássico e se manter fiel a sua proposta. Um feito, considerando que tantas adaptações falharam nesse mesmo quesito. O ponto de partida para isso é a humanização da personagem, através da explicação didática dos conflitos que a fizeram se voltar para a escuridão. Malévola não amaldiçoa a princesa por um ato de maldade espontâneo, mas atua como um reflexo a cobiça humana que devorou sua inocência.

Cabe a Angelina Jolie dar vida a personagem e com um carisma sem igual, a atriz consegue construir a fada de maneira tridimensional, transitando com facilidade pelos sentimentos mais antagônicos. Essa característica se manifesta principalmente nos momentos em que ela se refere a Aurora como “praga”, num tom que mescla desprezo e afeto. Não era de se esperar menos de uma atriz tão notória por seus papeis dramáticos. O excelente trabalho de maquiagem é visível, valorizando alguns elementos icônicos como as maçãs do rosto da personagem.

A vilã/anti-heroina tem seu arco dramático interessante desenvolvido, mas mesmo não sendo o foco, a princesa também é capaz de despertar (não pera…escolha errada de palavras) nossa atenção. A bela Elle Fanning encanta com sua beleza e doce sorriso constante – sério, ela parece que não ser capaz de parar de sorrir. Enquanto isso, Sharlto Copley não consegue ser sutil na composição de seu Rei Stefan, se entregando a uma caricatura que poderia facilmente ser evitada.

Tecnicamente o filme é irretocável no que tange a seu design de produção e efeitos visuais. Stromberg, antes de se aventurar como diretor, é um designer de produção oscarizado por Avatar e Alice no País das Maravilhas, isso explica um pouco o esmero da fita em relação à composição do fabuloso reino de Moors e seus habitantes. Na tentativa de valorizar esses elementos, o diretor opta por constantes planos abertos. Ao longo da projeção, é possível observar mudanças significativas na paleta de cores utilizadas pelo experiente diretor de fotografia Dean Semler e nos figurinos da personagem titulo.

Mas nem tudo são acertos, principalmente do senhor Robert Stromberg. Se o diretor tem êxitos incontestáveis nos quesitos estéticos, falha monstruosamente ao ditar o ritmo do longa. Com uma narrativa fragmentada cobrindo eventos que transcorrem durante anos, o diretor não consegue imprimir a tensão necessária em momentos chaves. Além da bagunça cronológica, o espectador não tem tempo suficiente de digerir alguns acontecimentos importantes, já que logo em seguida uma solução já é apresentada. Em nenhum momento se cria uma atmosfera de tensão que faça com que haja uma preocupação com o destino dos personagens.

Por mais que o filme cometa esses tropeços, o resultado final é bastante satisfatório e pode ser considerado mais um exemplar da Disney na sua atual cruzada para reavaliar o conceito de amor verdadeiro já que o mundo não é mais um lugar tão inocente. Malévola conta com o carisma inegável de sua protagonista para humanizar a personagem-título e com o diretor certo, certamente seria mais um clássico Disney.

 

Obs.: Saia da sala antes dos créditos…começa a tocar uma música da Lana Del Rey.

 

Renan Sena

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