Guardiões da Galáxia – A Marvel mostra que tem colhões e acerta novamente

Desde o seu anuncio na San Diego Comic Con em 2012, Guardiões da Galáxia foi considerado, por muitos jornalistas e especialistas em cultura pop, como uma aposta arriscada da Marvel Studios.  Talvez por se tratar de uma aventura espacial que conta com um guaxinim falante como um de seus protagonistas, muita gente não acreditou no sucesso da nova empreitada da Casa das Ideias, já que a premissa básica do longa destoava completamente do tom do universo compartilhado até o momento. Apostar em apresentar uma super equipe pouco conhecida pelo grande público, mostrou que Kevin Feige e James Gunn tem colhões e o resultado final dessa ousadia é o mais fantástico possível.

O texto do próprio Gunn em parceria com Nicole Perlman nos apresenta o jovem Peter Quill (Chris Pratt) momentos após testemunhar a morte de sua mãe. Agora órfão, o  jovem sai as pressas do hospital para se entregar ao pesar, mas é surpreendido ao ser abduzido por um OVNI. Após 26 anos na companhia de um grupo de aliens, auto-denominados Saqueadores, Quill decide se lançar em uma empreitada por conta própria, se arriscando a roubar um artefato misterioso chamado Orb.  O sucesso de sua missão, acaba colocando o Star Lord na alça de mira de Ronan (Lee Pace), um fanático religioso Kree que possui uma aliança frágil com Thanos (Josh Brolin), que decide colocar a habilidosa assassina Gamora (Zöe Saldana) no encalço do carismático fora-da-lei.  Fora dessa rede de intrigas intergaláticas, o guaxinim badass Rocket Raccon (dublado por Bradley Cooper) e a árvore humanoide Groot (dublado por Vin Diesel) também  ficam sabendo da recompensa pela cabeça do Senhor das Estrelas e entram na caçada. As coisas acabam fugindo do controle e Quill, Gamora, Rocket e Groot vão parar na cadeia, onde encontram o literal Drax (Dave Bautista) que deseja se vingar de Ronan por ter matado sua família.  Os cinco acabam formando uma parceria improvável e se tornam a única esperança da Galáxia.

Um grupo de desajustados

Um grupo de desajustados

Sem jamais soar denso ou pretensioso, o roteiro parece adotar a estratégia narrativa de filmes clássicos de aventura  oitentistas. Essa postura despretensiosa se reflete no desenvolvimento do longa que se prova uma obra de ficção cientifica com o único propósito de divertir e faz isso com maestria. Gunn usa o fato de Peter Quill ter saído da Terra nos anos 80 como justificativa para tiradas bem humoradas e referências a obras de cultura pop da época (reparem na sensacional citação a Footloose).  Essas referências servem como uma ode a esse período em particular do cinema (principalmente Star Wars), onde James Gunn se apropria de diversos arquétipos consagrados para dar o tom dos seus personagens e extrair diversos alívios cômicos, que sempre funcionam sem jamais parecerem forçados.

De forma alguma, esse pastiche deve ser encarada como simplistas, pois o diretor é deveras eficiente na apresentação dos personagens e na maneira que eles interagem entre si, criando uma personalidade própria  para sua obra. O que, particularmente, considero um feito digno de aplausos, pois se trata de personagens do 4 escalão da Marvel, desconhecidos para o grande público que se acostumou a ver as aventuras de Homem de Ferro e cia. Cada um tem seu estilo de humor e motivações que os tornam diferenciados.

OGA CHAKA OGA OGA!

OGA CHAKA OGA OGA!

O exemplo que ilustra melhor o acerto de Gunn é a escolha de Chris Pratt para o papel de Peter Quill/Star Lord. O ator não merece ser reverenciado apenas por ter perdido cerca de 20 kg e por ter ganho alguns músculos, mas sim pela irreverência sem igual que emprega na construção do líder dos Guardiões.  O charme do personagem consiste na facilidade em que ele transita entre os diversos aspectos de sua personalidade.  Outra supresa fica por conta de Dave Bautista como Drax – O Destruidor. Sua incapacidade de entender metáforas é uma das coisas mais hilárias do longa, mas o que impressiona é que o personagem não é abordado apenas como um brutamontes, tendo o pesar e o desejo de vingança contra aqueles que tiraram a vida das pessoas que lhe eram queridas, como sua principal motivação.  Além disso, vale destacar que Bautista é ex-lutador da WWE, e tirando Dwayne “The Rock” Johnson, poucos conseguiram properar em Hollywood.

É dificil escolher personagens favoritos, mas certamente Rocket e Groot se destacam na multidão.  Groot  consegue ganhar nossos corações com seus grandes olhos gentis e doçura até nos momentos mais tensos,  mesmo com seu vocabulário extremamente limitado. Seu relacionamento com Rocket, cria um contraste interessante, pois o guaxinim geneticamente modificado tem personalidade forte e é um prankster inverterado. O trabalho de voz de Bradley Cooper é essencial para conferir a energia necessária ao personagem. O bromance dos dois é tão marcante, que é possível traçar um paralelo imediato com a relação de Han Solo e Chewbacca  em Star Wars.

Mais que um bromance

Mais que um bromance

Talvez a personagem que tenha se perdido um pouco com relação aos quadrinhos seja a Gamora interpretada por Zöe Saldana, não que isso seja muito negativo. Conhecida nas HQs por se a “assassina mais letal da galáxia”, na fita a personagem se mostra mais vulnerável do que o esperado. O leitor mais detalhista provavelmente vai achar que a personagem deveria ser mais durona e inflexível. A confusa relação de Gamora com sua irmã adotiva Nebula, interpretada por Karen “Amy Pond” Gillian, acaba proporcionando uma excelente cena de combate corpo-a-corpo.

Na galeria de vilões, podemos ver uma participação mais significativa de Thanos pela primeira vez. O ser mais temido da galáxia tem o trabalho de voz feito por Josh Brolin, mas ele atua apenas nos bastidores como uma figura manipuladora nesse longa, pois aparentemente a Marvel está preparando algo mais grandioso para o personagem possivelmente na fase 3 ou 4 de suas produções. A grande ameaça para os Guardiões da Galáxia atende pelo nome de Ronan – O Acusador.  Interpretado por Lee Pace, o vilão é desenvolovido como um ser extremista típico e mortal, que por mais que pareça unidimensional, serve para seu propósito narrativo  de motivar a união do grupo.

James Gunn se mostra bastante competente na concepção de sequências de ação frenéticas.Tantos os embates espaciais quanto os momentos de ação fisica são construidos de forma agil e bem humorada. Talvez, esse seja o longa de super heróis que melhor justifica o uso do 3D, seja nos momentos de ação ou para aumentar a sensação de vastidão do espaço.

“I AM GROOT!”

No que se relaciona aos quesitos técnicos, o longa se destaca pelo esplendoroso trabalho de design de produção que se aproveita da vibe despretenciosa dessa aventura espacial para conceber locações e criaturas multicoloridas e com um rico grau de detalhamento. Esses aspectos se estendem para a concepção dos figurinos e de maquiagem que certamente merecem ser lembrados em vindouras premiações.  O filme é esteticamente tão fantástico, que dá vontade de pausar cada frame só pra checar todos os detalhes.

Embalado pela pontual  trilha sonora do competente Tyler Bates, o elemento que dá a tônica do longa é sem dúvida a lista de clássicos dos anos 70 e 80 escolhida a dedo por James Gunn. De David Bowie a Jackson 5, as músicas exercem importância não só por se relacionarem ao arco dramático de Peter Quill. Não se surpreenda se você sair da sessão cantarolando uma das músicas do “Awesome Mix vol. 1”.

“Agora nós somos como o Kevin Bacon?”

Guardiões da Galáxia trás consigo aquele espirito dos filmes de aventura clássico dos anos 80 e não se envergonha nenhum pouco de suas influências.  Em tempos em que todo filme de super herói precisa ser sombrio e que a plot dos Guardiões era considerada “estranha” e arriscada, James Gunn e a Marvel nos fazem querer que todo blockbuster tenha a ousadia de ser “estranho” na mesma medida. Para todos aqueles que consideravam que esse filme era uma aposta…a Marvel sabe exatamente o que está fazendo e está mandando beijinho no ombro pra concorrência.

 

Renan Sena

 

 

 

 

 

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Um comentário sobre “Guardiões da Galáxia – A Marvel mostra que tem colhões e acerta novamente

  1. […] Depois de mostrar colhões e fazer sucesso com Guardiões da Galáxia, a Marvel já tinha provado que era possível pegar heróis pouco conhecidos  para o grande público e surpreender. A nova aposta do estúdio estava no Homem Formiga, que mesmo  sendo originalmente um dos fundadores dos Vingadores, nunca tinha conseguido emplacar uma série de sucesso nos quadrinhos. A príncipio a inglória missão de adaptar a história do diminuto super herói era do cultuado Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo e a Trilogia do Cornetto), mas por diferenças criativas, o diretor abandonou o projeto que desenvolvia a mais de 5 anos. Mesmo com os bastidores conturbados devido a diversas revisões de roteiro e troca de direção, o resultado  final é um filme digno de ostentar o selo Marvel de qualidade. […]

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