Demolidor – O homem sem medo ressurge

charlie-cox_demolidorVerdade seja dita, o Demolidor nunca tinha sido adaptado para outra mídia com sucesso. Eu sei que você ainda acorda chorando a noite, por conta da versão dirigida em 2003 por Mark Stevenson Johnson e protagonizada pelo Ben Affleck. Eu sei que você se lembra com estranheza do Atrevido (obrigado dublagem brasileira), alcunha que o Matt Murdock usava quando foi advogado de Bruce Banner em O Julgamento do Incrível Hulk em 1989.

De lá pra cá, Joe Carnahan ainda tentou vender pra Fox uma adaptação que era descrita como um thriller hardcore dos anos 70. Infelizmente, por mais que essa ideia de ver o Demolidor num contexto mais violento fosse interessante, o projeto de Carnahan nunca chegou a receber sinal verde. Então o sonho de toda marvete se tornou realidade e os direitos de adaptação do personagem voltaram para casa. Com os alicerces do MCU já estabelecidos, muitos se perguntaram como a Casa das Idéias faria para incluir o Homem sem Medo nesse universo compartilhado.

O Atrevido >>>>>>>> Ben Affleck

A solução para isso foi procurar um parceiro, mas quem seria capaz de produzir um material de qualidade, mais ou menos no nível em que a Marvel Studios estava fazendo no cinema? Foi então anunciada uma parceria com a Netflix, com o objetivo de criar séries individuais do Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, além de uma série-evento dos Defensores, que uniria esses super heróis para lutar contra uma causa em comum. Lágrimas escorreram dos olhos de todos os nerds do mundo.

A história é aquela mesmo que vocês já conhecem: após sofrer um acidente que  tirou sua visão, Matt Murdock (Charlie Cox) acabou tendo seus outros sentidos ampliados. De dia Matt trabalha como advogado ao lado de seu sócio e amigo Foggy Nelson (Elden Henson), mas a noite, ele usa  seus sentidos aguçados e sua fantástica habilidade atlética para lutar contra a criminalidade que assola Hell`s Kitchen. Logo no piloto, somos apresentados a Karen Page (Deborah Ann Woll)), uma jovem acusada injustamente por ter assassinado seu colega de trabalho. O caso é defendido pela jovem firma Nelson & Murdock, onde as investigações acabam revelando as intenções de uma poderosa organização criminosa que atua nas sombras para controlar o destino de Hell’s Kitchen.  No topo da pirâmide desse organização, se encontra Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), um homem poderoso com uma visão particular de como tornar a cidade um lugar melhor. Com o mesmo objetivo em mente, mas usando meios diferentes, o confronto entre Fisk e o Demolidor dita a tônica dessa primeira temporada.

Demolidor de raiz

Demolidor de raiz

Inicialmente o projeto começou desenvolvido por Drew Goddard (Buffy: A Caçadora de Vampiros), mas devido a conflitos de agenda, Steve DeKnight (Spartacus) acabou assumindo o posto de showrunner. Em suas entrevistas, DeKnight sempre reforça que a fase do super herói escrita por Frank Miller foi sua maior influência e além da clássica roupa preta, isso se evidencia em diversos elementos que a série aborda em sua primeira temporada.

A começar pelo tom mais realista, se aproximando do gênero policial, a série definitivamente é o exemplar mais sombrio das produções da Marvel até aqui. Com uma abordagem muito mais visceral, as fundações do universo urbano começam a se estabelecer de forma quase independente. A ação é acompanhada de perto, com a câmera passeando entre as lutas fabulosamente coreografadas. Vale destacar o já famoso plano sequência do segundo episódio, como uma das cenas mais icônicas de toda a série.

Os próprios eventos da Batalha de Nova York são abordados quase como um “11 de setembro” servindo como estopim para os acontecimentos da série, mas em geral essa nova safra de obras televisivas se isolam do resto do MCU. O espectador mais atento vai ser capaz de captar uma infinidade de  referências a personagens e outros acontecimentos dos filmes e séries, mas tudo é feito de forma extremamente inteligente.

A jornada do herói é contada aos poucos, sem afobação os flashbacks são dispostos ao longo dos episódios de forma orgânica. Acompanhamos a rotina de combate ao crime do Demolidor, mas aos poucos vamos conhecendo as motivações que o levaram a vestir o capuz e sair pelos telhados de Hell`s Kitchen surrando mafiosos e psicopatas. Isso se reflete até mesmo no traje usado pelo herói, que começa simples e funcional, mas vai evoluindo a medida que os episódios vão apresentando memórias e diálogos que justificam o desenho final da roupa usada pelo Diabo de Hell`s Kitchen. Essa fórmula é muita similar a usada por Frank Miller e John Romita Jr. na minissérie O Homem Sem Medo, mas como eu disse anteriormente, o que mais tem nessa série é referência a essa fase dos quadrinhos.

Essa  abertura

A religiosidade que impulsiona a vontade de Matt Murdock de fazer justiça é a característica que faz o contraponto entre o Demolidor e seus inimigos. Esse é um aspecto recorrente nos quadrinhos, ganha o destaque devido nas interações de Matt com o padre Lantom (Peter McRobbie), momentos essenciais  para a construção do seu senso de justiça. O personagem é muito interessante, exatamente por esses conflitos e Charlie Cox é brilhante ao conseguir transpor todas essas nuances e sutilezas em sua interpretação. Não devendo nada para os heróis do cinema, fica a torcida para que ele ganhe papel de destaque nos vindouros filmes da Marvel.

Do lado oposto se encontra Wilson Fisk interpretado de forma fabulosa por Vincent D’Onofrio. A construção do vilão obedece mais ou menos a mesma estrutura narrativa da origem de seu adversário. Inicialmente agindo nas sombras, aos poucos somos apresentados a aquele que viria a se tornar o Rei do Crime, conhecendo desde a sua infância traumática até o momento em que ele se apaixona por aquela que viria a se tornar Vanessa Fisk (Ayelet Zurer). Sua natureza conflitante acaba despertando sentimentos conflitantes em seus aliados que varia da admiração e devoção de seu assistente Wesley (Toby Leonard Moore); do medo de Melvin Potter (Matt Gerald); até a desconfiança de Leland Owlsley (Bob Gunton), que nos quadrinhos assume a alcunha de Coruja.

O Rei do Crime é construído de maneira dúbia, nós conhecemos todos os aspectos da personalidade do vilão e por isso acabamos sentindo uma certa empatia pelo personagem. Vincent D’Onofrio surpreende por sua imponência física, atuando sempre como se estivesse contendo um urro de ódio. Quando entra em um embate físico o vilão assusta pela brutalidade, parecendo um gorila louco e perigoso.

Pobre Wilsonm Fisk, ele só quer tornar a cidade um lugar melhor.

Pobre Wilsonm Fisk, ele só quer tornar a cidade um lugar melhor.

A série basicamente gira em torno dos dois, mas não podemos deixar de destacar os coadjuvantes aliados aos nossos protagonistas. Do lado de Murdock temos Foggy Nelson interpretado por Elden Henson, que não serve apenas como um alivio cômico, por mais que quando necessário faz muito bem esse papel. Deborah Ann Woll também se destaca como Karen Page, uma jovem forte e decidida, mas com um passado misterioso que provavelmente vai ser mais explorado nas próximas temporadas.  A dinâmica entre os funcionários da Nelson & Murdock é excelente.

No meio de todas essas intrigas, caem de paraquedas na história a enfermeira Claire Temple, interpretada pela bela Rosario Dawson. Por mais que sua participação tenha sido breve, sua relevância foi enorme e ficou aquela vontade de ver mais algumas interações entre o Demolidor e a Enfermeira Noturna. Afinal de contas mais Rosario Dawson nunca é demais. Ben Urich, um dos jornalistas mais icônicos do Universo Marvel está presente, interpretado por Vondie Curtis-Hall. Jornalista implacável, acompanhamos Urich tentando mudar o mundo com suas histórias, ao mesmo tempo em que lida com a doença de sua esposa. Seu destino acaba se provando uma estratégia ousada e surpreende pela coragem dos produtores.

Fica a expectativa para acompanharmos mais momentos de tribunal na próxima temporada.

Fica a expectativa para acompanharmos mais momentos de tribunal na próxima temporada.

Muitas sementes foram plantadas para as próximas temporadas e para as futuras produções. Funcionando como base para o núcleo urbano do MCU, Demolidor justifica o hype que se criou e prova que o casamento entre Netflix e Marvel foi o melhor que poderia ter acontecido para o personagem.

Agora Marvel, deixem o Steve DeKnight fazer uma série do Justiceiro como se deve!

Renan Sena

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