Mad Max: A Estrada da Fúria – Testemunhem a loucura!

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Faziam 30 anos desde que George Miller se aventurou pela última vez no universo devastado de Mad Max. Apenas a trilogia original, que foi responsável por projetar a carreira de Mel Gibson, já era suficiente para credenciar o já septuagenário diretor como visionário. Afinal de contas, não é qualquer um que consegue construir uma mitologia baseada em um western pós-apocaliptico australiano com uma estética sadomosoquista.

Muitas pessoas pensaram: “Ai Hollywood é tão sem imaginação…outro(a) reboot/sequência. Vai ser uma merda! #mimimi”. Mas essa desconfiança se dissipa como oxigênio no coração de uma explosão de dois motores V8, quando as luzes se apagam e a projeção começa. O retorno do cineasta para a franquia que o consagrou é glorioso e arrebatador.

Esse é o Max e ele não bate muito bem das ideias

Esse é o Max e ele não bate muito bem das ideias

O roteiro escrito em parceria por Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris, nos apresenta Max Rockatansky(Tom Hardy) e ele é louco. Louco por viver nessa sociedade que entrou em colapso, onde água e petróleo são motivos de guerra. Louco por não ter conseguido salvar a vida de sua família, quando o caos começou a se espalhar. Fadado a caminhar solitário pelo imenso deserto que se extende para além do horizonte, a situação do nosso anti-herói não é das mais animadoras. Ele acaba sendo capturado e obrigado a servir como bolsa de sangue para Nux (Nicholas Hoult), uma das criaturas de guerra que servem ao império local. Mas os caminhos de Max acabam se cruzando com os da Imperator Furiosa (Charlize Theron), quando a guerreira está em meio de sua rebelião particular. Perseguida por Immortan Joe (Keays-Byrne, o mesmo que interpretou Toecutter no primeiro filme) e seu pequeno exército, por ter libertado o harém particular do ditador, Furiosa está decidida a levá-las a terra prometida…e é basicamente isso.

Obviamente, os fãs mais antigos conseguem identificar como essa sociedade foi se deteriorando aos poucos, posicionando Estrada da Fúria alguns anos no futuro em relação ao longa original, mas isso são detalhes irrelevantes, pois Miller não ambiciona uma cronologia. Percebemos que o diretor deseja que sua obra se sustente por si própria, não sendo necessário nenhum conhecimento prévio de nenhum dos filmes anteriores da franquia. Não tem didatismo, flashbacks expositivos ou nada do gênero, pois o diretor confia na inteligência da sua audiência para preencher essas lacunas.

A abordagem do cineasta é direta ao ponto e a dinâmica da narrativa é bem linear, sem espaço para subplots desnecessárias ou  diálogos didáticos.O tom da jornada de Max e Furiosa  é ditado pelas enormes e elaboradas sequências de ação, que são concebidas com uma megalomania ímpar. A  experiência é similar a de um passeio de montanha-russa, com George Miller empregando uma energia sem igual, oferecendo pequenos respiros para que o público se recupere e aumentando o ritmo ainda mais na sequência seguinte. Uma ação puxa a outra, cada vez mais elaborada e surtada.

Que dia adorável!

Que dia adorável!

Porém, engana-se quem pensa que essa abordagem objetiva do diretor torne o filme raso e simplista. Muito pelo contrário, o longa é extremamente eficaz na construção dos seus personagens e das temáticas abordadas. Dando um destaque importantíssimo para as figuras femininas, apresentando-as como personagens fortes e independentes. A equidade de gêneros não é tratada de forma pedante ou ultra-feminista, mas como uma naturalidade digna de nota. Quando Miller aborda a fuga da escravidão sexual das personagens, ele demonstra repúdio com relação a objetificação sexual ou de qualquer outro tipo, mas em nenhum momento ele abusa dessa temática para chocar. Até mesmo porque apenas o conceito é apavorante o suficiente.

As falas do Tom Hardy provavelmente cabiam em apenas umas duas páginas do roteiro, mas engana-se quem pensa que o britânico não conseguiu substituir o Mel Gibson a altura. Fazendo jus ao seu titulo de louco desde os primeiros momentos da fita, a humanidade do personagem é construída em uma performance silenciosa, através de seus traumas e dedicação a jornada de seus atuais companheiros. Algo meio parecido com o “homem sem nome” do Clint Eastwood nos faroestes do Sergio Leone. Mesmo assim, a impressão que fica é que a protagonista do filme é mesmo a Imperator Furiosa. Demonstrando personalidade e força, a rebelde interpretada pelo bela Charlize Theron faz um contraponto excelente com Max e essa a figura do lobo solitário. 

Por mais que a narrativa seja bem linear, o mesmo não pode ser dito do designer de produção. O visual dos veículos retro-futuristas impressionam, desde os carros com a carroceria cheia de espinhos e ornamentadas com crânios de inimigos, até aqueles construídos na base de um tanque de guerra. Sem falar daquele carro que conta com uma série de percussionistas na parte traseira e uma enorme parede de amplificadores com um guitarrista com uma máscara de pele bizarra, pendurado em uns fios, enquanto incita as tropas de Immortan Joe com seus solos alucinantes em uma guitarra que solta fogo. Vocês não entenderam: É UM MALUCO COM UMA MÁSCARA DE PELE DESFIGURADA, QUE FICA PENDURADO NUM CARRO COM UMA PAREDE DE AMPLIFICADORES, QUE  FICA TOCANDO UMA GUITARRA QUE SOLTA FOGO!  Simplesmente porque eles precisam da própria música tema…alguém mais quer um spin-off só dele?

Um gif vale mais do que mil palavras

Um gif vale mais do que mil palavras

Esses conceitos de direção de arte casam perfeitamente com o magnifico trabalho do cinematógrafo John Seale, que retornou da aposentadoria só por esse projeto. Fazendo uso de uma paleta de cores extremamente intensas e saturadas durante boa parte da projeção, seu trabalho em conjunto com o diretor é fantástico no que se refere a construção dos planos. Não seria irresponsável dizer que temos um potencial candidato as principais premiações do ano. Sem falar que o 3D é usado de forma fantástica como uma ferramenta que contribui ativamente para enriquecimento da experiência. Miller entra para uma seleta lista de cineastas, que entendeu que o 3D não é para ser usado apenas para encarecer o ingresso e que pode servir para os propósitos autorais do realizador.

Economizando nos cortes nas cenas de ação,  ainda assim o diretor consegue manter o dinamismo das mesmas, sem precisar recorrer a confusão visual como alguns diretores de ação menos competentes. Vale parabenizar também o fato do Miller ter priorizado o uso de efeitos práticos em boa parte dos  momentos explosivos. O trabalho de pós produção e efeitos especiais também merece destaque, vide a fantástica cena da perseguição em meio a uma tempestade de areia. Mas nada consegue superar a beleza de uma autentica explosão!

WITNEEEEEEEESS!

WITNEEEEEEEESS!

É difícil encontrar palavras que consigam exprimir com exatidão a experiência imersiva que é assistir Mad Max:  A Estrada da Fúria. O mais próximo que eu cheguei disso, talvez foi classificar o filme como algo similar a ver um espetáculo do Circo de Soleil + um concerto do Slipknot + alguns comprimidos de ecstasy.  Mesmo assim, não é o suficiente. Porque de gênio e louco, o George Miller tem um pouco!

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