Divertida Mente – E se os nossos sentimentos tivessem sentimentos?

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Devo admitir que nos últimos anos, por mais que a técnica continuasse fantástica, a Pixar não conseguia manter a qualidade de outrora. O cancelamento de Newt e o adiamento de O Bom Dinossauro de agosto de 2014 para novembro de 2015, deixou um vácuo no calendário do estúdio e instaurou um principio de crise. Pela primeira vez desde 2005, passaríamos um ano sem um filme da Pixar nos cinemas.

Se você me conhece ou acompanha esse humilde blog, você provavelmente sabe o quanto eu sou apaixonado pela Pixar e como 2014 foi um ano díficil para mim! A eterna criança que existe em mim – aquela mesmo que sonha em ter uma coleção de HQs do Senhor Incrível e que deseja comer uma fatia de pizza no Pizza Planet –  precisava de um filme que resgatasse o espírito do estúdio. Esse filme veio das mãos de Peter Docter (Up – Altas Aventuras) e se chama Divertida Mente. Preparem seus lenços porque são literalmente muitos feels!

Jantar em família geralmente é tenso no Centro de Comando

Roterizado pelo próprio Peter Docter, acompanhamos a jovem Riley, uma adorável garota de 11 anos, que se vê forçada mudar-se com os pais para São Francisco. Deixando para trás as amizades e jogos de hockey, que marcaram sua infância feliz no Minnesota, agora a jovem e seus pais são obrigados a recomeçar numa cidade onde pessoas comem pizza de brócolis. Mas a ação em Divertida Mente, acontece mesmo dentro do cérebro de Riley, onde Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho, são emoções personificadas que vivem no Centro de Controle, comandando as reações e emoções da menina.

Em meio a todos os recentes acontecimentos na vida de Riley, Alegria e Tristeza acabam sofrendo um pequeno acidente e acabam indo parar nos confins da consciência da jovem, que está tendo problemas para se adaptar a nova cidade. Com Raiva, Medo e Nojinho no comando, as coisas meio que fogem dos eixos. Então, Alegria e Tristeza devem enfrentar os mais variados desafios dentro da mente da garota de 11 anos, para evitar maiores estragos em seus sentimentos.

Desde o curta Luxo Jr passando por  Toy Story, a Pixar tem uma longa experiência em se tratando de animar o inanimado. Se antes tínhamos assistido como seria se robôs, brinquedos, insetos ou escoceses  tivessem sentimentos, agora temos a oportunidade de acompanhar a inventiva nova empreitada do estúdio que nos monstra como seria se nossos sentimentos tivessem sentimentos. Mas reduzir o filme a apenas esse conceito seria simplista, pois o estúdio certamente nos entrega um de seus longas mais complexos e ambiciosos.

Alegria, essa ditadora fofa ❤

Todo esse conceito de personificação de emoções e a dinâmica do funcionamento do subconsciente de Riley, é explicado de forma orgânica e sutíl a medida em que a narrativa se desenvolve, jamais subestimando o público infantil. A aventura flui entre interior e exterior de maneira ágil, mostrando a relação de causa e efeito entre os dois mundos.

Centrado especificamente na jornada de Alegria e Tristeza, Peter Docter vai a fundo na exploração do papel das emoções. Alegria (dublada por Amy Poehler originalmente e por Mia Mello na versão brasileira) é apresentada como uma ditadora benevolente e controladora. Ela comanda a equipe no “Quartel General”, distribuindo as diretrizes para que a menina seja feliz 100% do tempo. Ela não sabe como lidar com a situação quando Tristeza, naturalmente tenta exercer sua função, por isso tenta limitar as ações de sua amiga azul sempre que possível. Suas intenções são boas, mas isso não impede que ela acabe sendo rude, mesmo que não seja intencional. São pequenas coisas como quando Bing Bong  (aquele lindo… mais abaixo tem um parágrafo todo dedicado a ele)  diz “O que você está fazendo aqui?” e ela responde “É uma boa pergunta! Você quer responder isso, Tristeza?“.

As ilhas de personalidade

Quando as duas se encontram isoladas e tudo começa a desmoronar literalmente, Medo, Raiva e Nojinho até tentam substituir Alegria da melhor forma possível, mas acabam exercendo apenas o papel a qual foram designados. Acabamos percebendo que a Tristeza também uma função importante a exercer no nosso amadurecimento. Todos acabamos passando por momentos tristes e aprender a lidar com esse sentimento é o que nos fortalece e nos ensina lições importantes. Relegar a esse sentimento, uma função secundária em nossas vidas, tem o mesmo efeito de anular uma das sensações mais básicas que nos torna humanos. A jornada de Alegria e Tristeza de volta ao Centro de Comando acaba sendo uma forma lúdica de tratar um assunto delicado.

A cereja em cima do bolo do roteiro de Peter Docter, com certeza são as piadas sobre o funcionamento da mente. Todas são extremamente inteligentes e jamais parecem forçadas. Aprendemos o motivo dos jingles irritantes que não saem da nossa cabeça, além de descobrir o motivos de fatos e opiniões as vezes se misturarem numa conversa. O roteiro ainda brinca com a linguagem de forma espetacular quando nossos heróis acabam entrando na Máquina dos Pensamentos Abstratos. Visualmente o filme é estonteante, com o design dos ambientes sendo um show a parte. Passando pelo Arquivo de Memórias, pela Terra da Imaginação, pelo hollywoodiano estúdio de produção dos sonhos, até as ilhas de personalidades, tudo é criando de maneira e inventiva e funcional.

Recheado de personagens carismáticos e caricaturais, todas conseguem ser traduzidas de maneira visual de forma exagerada. Mas de todas as emoções ou operários que trabalham na consciência de Riley, nenhum consegue ser mais “amor” do que Bing Bong, o antigo amigo imaginário da garotinha. Fadado a vagar pela mente de Riley, a criatura meio elefante-gato-golfinho ainda exerce grande papel na imaginação da jovem e auxilia Tristeza e Alegria em sua jornada de volta para o Centro de Comando. Quem não quer ir para Lua com o Bing Bong?

Bing Bong, me leva pra Lua?

Bing Bong, me leva pra Lua?

Eu não estaria exagerando se dissesse a vocês que a lembrança de assistir “Toy Story”e “Procurando Nemo” constitui uma das minhas memórias base, definitivamente existe uma Ilha da Pixar constituindo um dos pilares da minha personalidade. Muitos filmes do estúdio já tiveram a capacidade de nos fazer chorar, mas esse é o primeiro que nos explica porque choramos e ao longo desse processo choramos ainda mais. Seja provocando um choro de balas, ou de lágrimas mesmo, Divertida Mente marca o retorno da Pixar a boa forma e nos faz querer que o estúdio esqueça um pouco as continuações e invista mais em histórias originais.

Renan Sena

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