Homem Formiga – Não existe herói pequeno para a Marvel

BFOOT_BRAZIL

Depois de mostrar colhões e fazer sucesso com Guardiões da Galáxia, a Marvel já tinha provado que era possível pegar heróis pouco conhecidos  para o grande público e surpreender. A nova aposta do estúdio estava no Homem Formiga, que mesmo  sendo originalmente um dos fundadores dos Vingadores, nunca tinha conseguido emplacar uma série de sucesso nos quadrinhos. A príncipio a inglória missão de adaptar a história do diminuto super herói era do cultuado Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo e a Trilogia do Cornetto), mas por diferenças criativas, o diretor abandonou o projeto que desenvolvia a mais de 5 anos. Mesmo com os bastidores conturbados devido a diversas revisões de roteiro e troca de direção, o resultado  final é um filme digno de ostentar o selo Marvel de qualidade.

O texto de Wright,  Joe Cornish (Chumbo Grosso), Adam McKay (O Âncora) e Paul Rudd (Eu te Amo, Cara),  acompanha Scott Lang (Paul Rudd), um habilidoso ladrão que após cumprir pena na penitenciária de San Quentin, pretende seguir na linha para poder recuperar o tempo perdido ao lado de sua filha Cassie (Abby Ryder Fortson). Digamos que a sociedade não é lá tão legal com quem possui uma ficha criminal, então num momento de desespero Scott se junta a Luis (Michael Peña) , Dave (o rapper TI) e Kurt (David Dastmalchian) para um assalto que poderia resolver seus problemas. Roubar um cofre da casa de um aposentado parecia tarefa fácil para alguém com os talentos de Scott Lang, mas o que ele não esperava era que a vítima de seu golpe fosse o brilhante cientista Hank Pym (Michael Doulglas).

“Acho melhor a gente chamar os Vingadores”

Criando as condições perfeitas para testar os talentos de Scott, Hank acaba confirmando que ele é a pessoa certa para ajuda-lo a recuperar a perigosa tecnologia das partículas Pym, que Darren Cross (Corey Stoll), seu antigo protegido, está tentando replicar. Com a ajuda de sua filha, Hope van Dyne (Evangeline Lilly), o Dr. Pym passa a treinar Scott para que ele use seus talentos de invadir lugares e roubar coisas. Agora ele assume o traje e a responsabilidade de ser o Homem Formiga.

Joss Wheadon já havia declarado em entrevista recente que a ideia e roteiro de Edgar Wright para o Homem Formiga era provavelmente a melhor coisa que a Marvel já tinha feito. É óbvio que esse tipo de declaraçào sempre mexe com o imaginário de qualquer marvete e sempre vamos ficar nos perguntando como teria sido legal ver o que o Wright havia se proposto dirigir. Um dos fatores determinantes para a saída do diretor britânico do projeto, teria sido a imposição do estúdio para inserir conexões com os outros longas do MCU. O que se percebe é que ao assumir o filme, Peyton Reed fez um excelente trabalho em gerenciar essas questões, pois as referências as outras propriedades intelectuais da Marvel são pontuais, sem jamais criar uma dependência narrativa. Assim como em Guardiões da Galáxia, o longa funciona de maneira independente e busca uma identidade própria, mas devo admitir que talvez um dos melhores momentos da fita tenha sido o embate entre o Homem Formiga e um certo Vingador.

“Eu sou o Homem Formiga…eu sei…não foi ideia minha”

Considerado o epílogo da fase 2 do Universo compartilhado da Marvel, o longa apresenta uma série de similaridades com o primeiro Homem de Ferro. Seja por se tratar de um filme de origem, onde o herói absurdamente carismático aprende a lidar com suas novas habilidades; ou por seus vilões caricatos, cujos os objetivos giram em torno de sentimentos egoístas de enriquecer vendendo a inovadora tecnologia para aqueles com desejo de dominação mundial. Muitas são as características em comum, mas assim como todo filme da Marvel, Peyton Reed recorre a outros gêneros para se apropriar de alguns arquétipos que dão ao longa sua própria voz dentro desse universo em comum. Se aproximando de um heist movie e a filmes mais família, o fita é um híbrido super poderoso de Onze Homens e um Segredo e Querida, Encolhi as Crianças!

O diretor que tinha sido a primeira escolha da Fox para adaptar o Quarteto Fantástico em 2003 (o que nos faz pensar o quanto esse filme poderia ter sido melhor), só contava no currículo algumas comédias regulares como Sim, Senhor!. Com um cronograma extremamente apertado, devido a todos os contratempos da produção, o resultado de seu trabalho é impressionante. Por mais que Edgar Wright ainda tenha saído bastante creditado, Reed surpreende pelo tom despretensioso e bem humorado que escolheu dar ao longa. O diretor também é bastante competente ao conduzir as cenas de ação que brincam com a escala do herói, seja nos momentos onde ele tenta se salvar de um tsunami numa banheira ou quando tenta evitar ser pisoteado numa balada. De maneira muito inteligente, ele transita entre os pontos de vista macro e micro das cenas, gerando momentos marcantes como no embate entre o Homem Formiga e o Jaqueta Amarela que envolve o trenzinho de Thomas e seus Amigos.

Scott, eu estive observando você

“Scott, eu estive observando você”

Outro fator que colaborou com a saída de Edgar Wright do projeto, foi a imposição da Marvel para inserir um drama familiar. Nesse quesito, o texto revisado por Adam McKay e Paul Rudd tem seus erros e acertos. A relação entre Scott Lang e Cassie, contribui para conferir tridimensionalidade ao nosso herói. Movido pelo desejo de se redimir pelos erros do passado e de se reaproximar de sua filha, ele acaba se tornando muito mais vulnerável. Isso é beneficiado pela performance da adorável Abby Ryder Fortson que interpreta  uma das melhores personagens do longa.

Já o daddy issues entre Hank, Hope e Darren acabam sendo um dos pontos negativos do filme. A rebeldia de Hope van Dyne, ilustrada pelo fato da personagem adotar o sobrenome da mãe, se mostra excessivamente exagerada. Por sua vez, Hank Pym acaba mostrando um instinto protetor forçado na mesma medida da revolta de sua filha, mesmo que isso seja motivado por traumas do passado.

Mais um vilão caricato da Marvel

Mais um vilão caricato da Marvel

A relação entre Darren Cross e seu antigo mentor é no mínimo curiosa, pois aparentemente a mágoa e o ódio nutrido pelo vilão parece originar apenas do fato de Hank Pym se recusar a compartilhar seus segredos com ele. O Jaqueta Amarela interpretado por Corey Stoll, por sinal, é construído de forma cartunesca demais. Sua vilania é ilustrada na cena em que ele oblitera um de seus colegas de trabalho depois de uma pequena discussão, ou quando ele não se importa em sacrificar uma ovelhinha em um de seus experimentos – reparem no close-up na ovelha que tem como objetivo reforçar o quanto ela é fofa e o quanto ele é mal. Esse vilão se junta a extensa galeria de vilões unidimensionais apresentados nos filmes do Marvel Studios…que saudades de Tom Hiddlestone e seu Loki!

Se o vilão decepciona, o mesmo não pode ser dito do herói. Paul Rudd, que além de protagonizar o longa também contribui nas últimas revisões do roteiro, dribla toda e qualquer dúvida que poderia existir sobre sua capacidade de interpretar um herói. Mais conhecido por seus papéis em filmes de comédia, Rudd usa isso ao seu favor e esbanja carisma. Muito beneficiado pelo relacionamento com sua filha e pela dinâmica de mentor e aprendiz com Hank Pym, seu Scott Lang é construído como um loser em busca de redenção. Um personagem facilmente identificável, que ao contrário dos outros super heróis mais tarimbados do selo Marvel, é construído sem nenhum pingo de arrogância…esse é o super herói que por mais que tenha mestrado em engenharia elétrica, não consegue nem manter seu emprego como caixa de uma sorveteria. Seu timing cômico e talento para improvisação se destacam, tornando o Scott Lang naquele tipo de personagem que você não pensa duas vezes antes de convida-lo para tomar uma cerveja.

Hank Pym é outro que se beneficia bastante dessa dinâmica entre mentor e aprendiz e o Michael Douglas parece extremamente confortável em se comprometer com uma franquia gigante como essa. Vale destacar o uso da surpreendente tecnologia de rejuvenescimento facial, usado  nele para interpretar um Dr. Pym mais jovem no ínicio da projeção. Com certeza, o melhor exemplo do potencial dessa tecnologia…desculpa Exterminador do Futuro Gênesis. Fica a nossa expectativa para que a Marvel adapte as aventuras clássicas do Homem Formiga e da Vespa nos primórdios da S.H.I.E.L.D – não esqueçam de abusar das participações da Hayley Atwell como Peggy Carter, ok? Então ta bom!

Iceberg...cara, essa coisa matou o DiCaprio

Iceberg…cara, essa coisa matou o DiCaprio

Outro ator que se beneficia da abordagem bem humorada do roteiro é Michael Peña como Luis, parceiro de golpes de Scott.  O ator acaba demonstrando um enorme talento para comédia, que eu particularmente não me recordo de ver ele explorando em outros papéis. Impressionando por sua redes de contatos e surpreendendo com um conhecimento amplo sobre vinhos e arte, Luis acaba se destacando como um dos personagens mais divertidos de toda a fita. Se eu fosse tomar uma cerveja com o Scott Lang, certamente também chamaria o Luis.

A julgar pelo resultado final, é díficil dizer que Homem Formiga passou por tantos problemas e mudanças ao longo de sua produção. Filme de origem clássico de super herói, com características de filme de assalto, talvez esse seja o filme mais desprentencioso e familia da Casa das Ideias até agora. Fiel a sua proposta de entretenimento durante toda a sua projeção, essa é mais uma prova de que não existe herói pequeno para a Marvel, apenas um potencial, aguardando para ser explorado.

Obs.: Fiquem até o final dos créditos, pos tem duas cenas extras, como de costume.

Renan Sena

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