Cidades de Papel – A desconstrução da Manic Pixie Dream Girl

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Eu costumo classificar o conceito de Manic Pixie Dream Girl em duas categorias básicas. O primeiro arquétipo é a Penny Lane, que se refere a personagem protagonizada por Kate Hudson em Quase Famosos. Com seu espírito livre e sabedoria característica, essas personagens geralmente não tem muitas similaridades com o protagonista, mas  acabam tirando-o de sua zona de conforto.  O segundo tipo característico de MPDG e talvez o mais conhecido é a Sam, em referência a personagem de Natalie Portman em Hora de Voltar. Essas protagonistas femininas são apaixonantes com sua fofura e jeito atrapalhado. Sempre com uma visão otimista das coisas, elas acreditam que todas pessoas são legais e que as coisas sempre acabam se ajeitando. Com uma personalidade forte e um pouco de inocência, essas personagens resgatam o protagonista masculino de uma situação de forte depressão onde nada parece dar certo.

Esses arquétipos extremamente difundidos em comédias indies, vem sendo desconstruídos recentemente. Filmes como (500) Dias com Ela e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança constroem suas protagonistas em oposição as Manic Pixie Dream Girls. De forma surpreendente Cidades de Papel acaba sendo uma obra que ajuda a desconstruir esse conceito idealizado por seu protagonista, enquanto discorre sobre seu amadurecimento de forma admirável.

A trama é narrada sob a perspectiva do jovem Quentin “Q” Jacobsen (Nat Wolff), que desde sempre é apaixonado pela sua enigmática vizinha Margo Roth Spiegelman (Cara Delevingne). Amigos durante a infância, os dois acabaram se afastando ao longo da adolescência, quando a menina acabou se tornando popular e ele se tornou um nerd que toca na banda marcial da escola. Uma noite, perto do fim do último ano de colegial,  Quentin é surpreendido quando Margo entra em seu quarto para recuta-lo para uma missão: ajuda-la a se vingar de seu ex-namorado e suas amigas “traíras”. Margo guia Q para noite mais insana de sua vida, mas na manhã seguinte a jovem some deixando algumas pistas sobre seu paradeiro. Decidido a encontra-la, ele resolve recrutar seus melhores amigos Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith) para partir numa última aventura antes que cada um vá para sua respectiva faculdade.

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O longa é uma adaptação do livro homônimo escrito pelo popular John Green e roteirizado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, mesma dupla de A Culpa é das Estrelas e (500) Dias com Ela. O filme acaba mesclando características dos trabalhos mais populares de seus roteiristas, mas ainda assim não deixa de procurar sempre por sua própria identidade. A direção de Jake Schreier (Frank e o Robô) se mostra segura a medida que ele captura  adolescentes vivendo em seu mundo isolado e lidam com as expectativas do mundo adulto batendo a sua porta.

O texto abraça a filosofia aventureira de Margo, envolvendo a audiência sempre que a protagonista declama frases como “Você precisa se perder antes de se encontrar” , ou quando ela compara o mundo a sua volta a um mundo de papel, onde as pessoas possuem duas dimensões e não tem profundidade. Ao fazer isso, o roteiro parece abraçar um dos arquétipos de Manic Pixie Dream Girl e a narrativa se apresenta com uma promessa de tirar Quentin da sua zona de conforto, a medida em que ele começa a ver o mundo com o olhar particular de Margo. Isso é beneficiado com o artificio de narração em off de Quentin para nos guiar ao longo da história, reforçando que acompanhamos a jornada sob o ponto de vista de seu apaixonado protagonista.

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As diferenças entre as personalidades dos dois protagonistas é notável. Quentin é um aluno exemplar, que prefere se manter longe de confusão e aventuras, pois isso pode tirar seu foco e afasta-lo de seu objetivo de entrar para a faculdade de medicina. Enquanto isso, Margo é aventureira e seus sumiços repentinos devido ao tédio são recorrentes. Alçada ao status de lenda no ensino médio, não faltam teorias nos corredores da escola sobre o que Margo Roth Spiegelman deve estar fazendo. Tanto que em suas interações,  Cara Delevingne e Nat Wolff parecem reforçar essas diferenças com a falta de química entre seus personagens. Tudo parece se encaminhar para um lugar comum.

A medida em que a narrativa se desenvolve, o foco da jornada acaba se distanciando da busca por Margo e temos a oportunidade de acompanhar um desenvolvimento mias profundo na amizade entre Q, Ben e Radar. Se a química entre Nat Wolff e Delevingne parecia deliberadamente forçada, o mesmo não pode ser dito entre suas interações com Austin Abrams e Justice Smith – uma cena em particular onde os três cantam juntos o tema de abertura de um desenho popular ilustra muito bem isso.

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Pokemon, temos que pegar eu sei…

Com diálogos eloquentes, acompanhamos o grupo de adolescentes descontruindo estereótipos estabelecidos e se autoafirmando como indíviduos, como na emocionante cena em que Lacey (Halston Sage) conta para Quentin que está cansada de ser vista apenas como uma garota bonita. Os personagens de papel vão ganhando profundidade a medida em que o terceiro ato assume um caráter de road movie. São nesses momentos em que toda a filosofia de Margo de viver a vida intensamente e criar memórias passa a fazer sentido de fato.

Por mais que tenha pouco tempo de tela, Delevingne consegue deixar uma impressão forte e sua presença é sentida ao longo de toda a projeção. A atriz é bem sucedida ao construir Margo como uma menina de personalidade indomável, porém confusa e insegura como qualquer adolescente normal. Por mais que suas atitudes pareçam egoístas, suas ações ganham um peso a medida que temos a oportunidade enxerga-la como um individuo que deseja se descobrir  além da imagem idealizada construída sobre ela. Uma personagem que se desenvolve em oposição a qualquer Penny Lane apresentada, assim como a Summer de (500) Dias com Ela se opunha a outra categoria de MPDG.

Só o tempo vai dizer se Cidades de Papel vai consiguir sobreviver ao tempo como Clube dos Cinco , Conta Comigo ou outros filmes mais famosos que falam sobre esse período de transição entre a adolescência e a fase adulta. Jake Schreier nos entrega uma obra que desconstrói o conceito de Manic Pixie Dream Girl, de uma forma a humaniza-la….de uma vez por todas, agora é possível entender que a Summer não era uma vadia!

Renan Sena

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