Batman vs Superman: A Origem da Justiça – A Trindade e os fãs mereciam mais

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“Eu quero que você se lembre da minha mão em sua garganta. Eu quero que você se lembre do único homem que venceu você”. Foi com essa frase que o ator Harry J. Lennix anunciou Batman vs Superman: A Origem da Justiça no palco do Hall H na San Diego Comic Con em 2013. Um tempo depois do anúncio, veio a confirmação da participação da Mulher Maravilha, o que só aumentou a ansiedade dos fãs que já estavam enlouquecidos com a promessa do embate épico entre o Homem Morcego e o último Filho de Krypton.

Batman, Superman e Mulher Maravilha são mais do que personagens da DC Comics. A Santíssima Trindade da nona arte é um ícone da cultura pop, são figuras facilmente reconhecidas por todos em qualquer um dos cantos desse nosso pequeno planeta azul. A pressão dos fãs para que a Warner/DC replicasse a fórmula de universo compartilhado da Marvel/Disney, contribuiu para acelerar os planos do estúdio que até agora, só tinha apresentado o Homem de Aço no filme dirigido pelo Zack Snyder.


Snyder assume novamente a cadeira de direção, enquanto Chris Terrio e David Goyer se responsabilizam pelo roteiro que repercute a devastação causada em Metrópolis, após o embate entre o Superman e o general Zod. As opiniões sobre o alter ego de Clark Kent são polarizadas, pois enquanto algumas pessoas o enxergam como um símbolo de esperança, uma parcela crescente da população o encara como ameaça e procura algum tipo de justiça pelo caos e destruição que ele causou em sua última batalha.
Bruce Wayne é um desses cidadãos temerosos com um possível futuro, em que esse ser de tamanho poder possa um dia se voltar contra a humanidade. Depois de 20 anos atuando na luta contra o crime em Gotham City, o Batman encara o Superman como um perigo para a sociedade e procura por uma arma que possa ajuda-lo a lutar contra Kal-El. Nessa busca, Bruce acaba entrando em rota de colisão com Lex Luthor, após descobrir que o excêntrico magnata está em posse de uma amostra de kryptonita grande o suficiente para criar uma arma que poderia subjugar o Superman. Enquanto isso, Luthor segue com seus jogos de manipulação para tentar obter acesso aos destroços da nave e cadáver de Zod.

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“Se eu quisesse,  você já estaria morto”

A intenção da Warner de criar um tipo de identidade própria para seus filmes é algo visível. Mas a pressa e a necessidade de estabelecer conceitos de um universo compartilhado, cobra seu preço. O que observamos nos dois primeiros atos de Batman vs Superman é uma longa apresentação de conflitos dos personagens e ainda assim nenhum deles consegue ser devidamente aprofundado devido as limitações de seu roteiro. Questões mais profundas relacionadas ao heroísmo, principalmente a dualidade entre as visões dos protagonistas são tratadas de forma superficial e não funcionam como fio condutor para o aguardado embate prometido no título. Zack Snyder falha em imprimir um bom ritmo que ajude a desenvolver todos esses aspectos.
O longa tem um início promissor com um plano belíssimo que narra o fatídico episódio da mortes dos pais do jovem Bruce Wayne, usando alguns elementos estéticos que são marca registrada de Zack Snyder. A construção do Batman é um dos raros acertos do filme e a atuação de Ben Aflleck é um alento para aqueles que desconfiavam da capacidade do ator para encarnar o novo Homem Morcego. O personagem se apresenta embrutecido depois de anos de luta contra o crime e as perdas que se sucederam. Levemente inspirado no Cavalheiro das Trevas de Frank Miller, com uma personalidade cínica e sem as amarras de seu código moral de não matar, essa é uma versão mais brutal e mais sisuda, diferente de qualquer Batman que já foi apresentado no cinema.

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Contrastando com a personalidade radicalizada do Homem Morcego, o Superman de Henry Cavill ainda está longe de ser aquele personagem idealista e com forte conduta moral que conhecemos dos quadrinhos. Clark Kent continua passando por conflitos internos relacionados a natureza de seus poderes e a obrigação moral que eles trazem. Por mais que esse aspecto tenha sido muito bem desenvolvido em O Homem de Aço, o Superman parece estagnado em seus próprios conflitos, o que impede o personagem de amadurecer. Ele precisa sempre de um certo tipo de apoio de Martha Kent ou de Lois Lane, o que o fragiliza e acaba causando um certo distanciamento.
É o contraste entre os dois protagonistas que é o melhor aspecto do filme, mas o roteiro não explora isso da melhor forma possível. O texto de Chris Terrio e David Goyer é problemático, se entrega a uma sucessão de diálogos e cenas que não ajudam no desenvolvimento da narrativa. Desde os pesadelos de Bruce Wayne ou os diálogos de Clark Kent com seu falecido pai, o longa é repleto de momentos que apenas incham os exaustivos 153 minutos de projeção. Esse excesso tampouco contribui com a evolução dos personagens, ou ajudam a criar qualquer laço de empatia com o público. Muito pelo contrário, por diversas vezes eles tomam atitudes intelectualmente questionáveis ou se encontram em situações absurdas.

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Umas das situações mais recorrentes e estapafúrdias é a presença de Lois Lane no centro da ação. Por mais que a Amy Adams seja uma atriz extremamente talentosa, o roteiro não permite que ela faça muita coisa, pois sua personagem está sempre em posição de perigo e precisando ser salva pelo seu amado. Dentre os outros coadjuvantes, vale destacar o Alfred vivido por Jeremy Irons e o Perry White de Laurence Fishburne. Ambos trazem uma atuação extremamente equilibrado e sempre fazem comentários críticos e divertidos que trazem um frescor muito bem vindo a narrativa.
Se os heróis funcionam de alguma forma, o mesmo não pode ser dito do principal vilão da trama que nem de perto lembra o gênio e frio antagonista das histórias do Superman. É uma versão para encaixar Lex Luthor num contexto mais atual, construindo-o como um jovem magnata socialmente inapto, energético e sempre com uma referência literária na ponta da língua. Seria interessante ver o vilão revitalizado nesses moldes, mas a atuação cheia de maneirismos de Jesse Eisenberg constrói um Lex extremamente caricato. O personagem é apresentado como arrogante e mimado, uma espécie de ateu que só quer destruir uma figura divina.

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Lex Luthor mimado e caricato

Como dito anteriormente, as diferenças ideológicas não são o principal fio condutor até a luta tão esperada entre Batman e Superman. São necessários os dois primeiros atos se desenrolarem num ritmo moroso, para que então uma sucessão de eventos que não está sob o controle dos dois heróis, coloque-os em confronto. Quando chegamos até o tão esperado momento, o embate não tem o impacto esperado devido ao caos visual das cenas de ação e a rapidez com que os problemas se resolvem. O diretor é conhecido por ter uma identidade visual muito forte, alguns planos são realmente belos e dignos de aplausos, mas em geral fica devendo um pouco de personalidade.
A participação da Mulher Maravilha é um dos pontos altos do longa, apesar de Gal Gadot não tem muito tempo em cena. As outras pequenas pistas sobre o futuro do universo cinematográfico da DC soam artificiais, salvo uma rápida aparição de um personagem. De resto é fan service, pelo fan service. Zack Snyder parece perdido em sua tentativa de estabelecer um universo compartilhado coeso de uma hora pra outra e isso põe em xeque o trabalho que ele está realizando na produção do vindouro filme da Liga da Justiça. Se ele teve dificuldade de lidar com o desenvolvimento de três grandes personagens, será mesmo que ele terá pulso pra comandar um filme com seis?!

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A Trindade finalmente reunida

Desde a escolha de seus diretores, a proposta do estúdio da caixa d`água é dar autonomia aos seus realizadores fazerem seus próprios filmes dentro desse novo universo DC. Zack Snyder pecou pelo excesso e entregou um longa sem foco e inchado.Se essa estratégia vai se provar acertada, só vamos saber no futuro quando David Ayer (Esquadrão Suícida), James Wan (Aquaman), Patty Jenkins (Mulher Maravilha), Phill Lord & Chris Miller (Flash) conseguirem entregar seus filmes.
Devo admitir que ver o Homem Morcego, a Princesa de Temyscira e o Azulão juntos fez feliz aquela criança que vive dentro de mim. Aquela mesma criança que voltava correndo da escola para assistir a série animada da Liga da Justiça. Mas ainda assim, Batman vs Superman: A Origem da Justiça não é o filme que a Trindade merece e nem mesmo é o filme que a Trindade precisa.

Renan Sena

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